quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

A Terra a dez mil quilômetros

Tintim, um jovem magro, de estatura baixa, rosto arredondado, traços faciais delicados e cabelos ruivos penteados de modo que haja um saliente topete. Ele está acompanhado do Professor Girassol, um senhor que aparenta mais de sessenta anos de idade, magro, baixo, de óculos, com apenas um pouco de cabelos escuros sobre as orelhas e a nuca. Com eles, está também Frank Wolff, um homem que parece ter cerca de cinquenta anos de idade, com cabelos parecidos com os do Professor Girassol, um pequeno bigode e óculos. Todos usam macacões, sendo que Tintim veste azul e os outros dois, tons diferentes de verde. Estão dentro de um foguete que viaja em direção à Lua. Os três se debruçam sobre um periscópio (equipamento que permite a observação de objetos cuja visão direta seria impedida por obstáculos). Eles veem o planeta Terra circundado por estrelas. Professor Girassol diz: “A Terra! Nossa velha Terra querida, vista a mais de dez mil quilômetros!”.


A descrição acima diz respeito a um quadrinho do álbum “Explorando a Lua”, da série “As Aventuras de Tintim” (Tradução de Eduardo Brandão, Companhia das Letras, p. 4). A história, criada pelo belga Hergé, foi publicada pela Casterman em 1954 (tendo chegado primeiro às páginas da revista Tintin belga entre 1950 e 1953, sob o título "On a marché sur la Lune"), quando o Homem ainda não havia chegado à Lua.

Tintim e seus amigos tiveram a honra de conhecer a vastidão de nosso “Lar Azul” antes de nós! O distanciamento do planeta permitiu que o jovem herói viajante conhecesse seus variados destinos em sua totalidade, enxergando os diferentes cenários de suas aventuras de outro ponto de vista.

E eis que esses cenários parecem diminuir, à medida que a distância aumenta... De longe, eles se confundem: Não há fronteiras; não existem países, cidades... Os governos, sejam democráticos ou ditatoriais, não alcançam as estrelas. Lá de cima, o que parecia grande e poderoso nada mais é que um detalhe, uma mancha vista com dificuldade... em meio a tantos caprichos humanos.

Às vezes, é bom “viajar para o Espaço”, ver a Terra de longe. Mudar o ponto de vista é essencial para observar o que não poderia ser notado da maneira convencional. É assim que surge a empatia, tão necessária à convivência, ao respeito e, por consequência, à preservação da espécie humana. Somente este sentimento permite que nos coloquemos no lugar do outro e colaboremos mutuamente na vida em sociedade.

Sem essa colaboração, caminhamos para a autodestruição. Basta que observemos a História para comprovarmos que as civilizações que se deixaram tomar pela ambição exacerbada, a competição sem limites e o consequente estado constante de guerra não tiveram futuro; a Humanidade assistiu à sua ruína.


Quando olhamos a Terra de longe, vemos o quanto ela é pequena – o quanto nós somos minúsculos. Só então percebemos que frequentemente valorizamos coisas que nada representam frente à imensidão do Universo. Esse distanciamento nos faz pensar. Só ele nos mostra a insignificância de hierarquias e julgamentos que nos conduzem a tantas injustiças.

A Terra é um pequeno planeta em meio ao desconhecido, na vastidão da real beleza da vida, dos mistérios da natureza. E nós somos apenas seres que vivem nessa pequena porção de terra e rocha. Este é o nosso lar. Nada mais interessa: onde nascemos, nossa cor de pele, religião, cargo, posição política, grifes, deficiências físicas ou intelectuais... Dividimos a mesma casa.

Habitantes do mesmo lar precisam prestar atenção uns aos outros, para que haja uma boa convivência. Isso ocorre na Terra? Não. Cada um tenta falar mais alto que o outro e ninguém se ouve.

O interessante sobre os álbuns de Tintim é que o homem da Ciência, que tanto explora a natureza para desvendar seus segredos mais ocultos e usá-los a seu favor, possui deficiência auditiva. Professor Girassol nunca compreende o que lhe é dito (levando, muitas vezes, Capitão Haddock a perder a paciência). Entretanto, nessa importante missão de exploração de uma nova realidade, o cientista passa a usar um aparelho auditivo. O distanciamento faz com que ele ouça. Longe da Terra, vendo-a pequenina, o homem da Ciência passa a compreender os companheiros, tornando-se um igual.

Quantos de nós tornamo-nos voluntariamente cegos e surdos, esquecendo-nos de que para entendermos a natureza precisamos nos sentir parte dela e que a “luta pela sobrevivência” não é uma corrida solitária, mas a colaboração mútua que permite a conservação da espécie? Ter empatia, ser ético e ajudar são as armas mais poderosas que temos nessa batalha cotidiana.

Volte ao primeiro parágrafo deste texto. Leia-o novamente, imaginando a cena descrita. Agora, pense que é desta forma que um cego “vê”. Ele precisa da empatia de quem enxerga para que o mundo material lhe seja descrito e, assim, ele possa se sentir parte dele, quando o tato não pode ser um recurso.

Em uma recente postagem do Tintim por Tintim, tivemos um belo exemplo de adaptação de conteúdo para áudio! As gravações das histórias de Tintim feitas pelos franceses têm permitido que os quadrinhos cheguem a quem não poderia desfrutá-los de outra forma. Vamos torcer para que outros países façam o mesmo – incluindo o Brasil -, para que a cultura se torne acessível a todos e, assim, sintamo-nos mais próximos como seres humanos, habitantes do mesmo “Lar Azul”.

Encerro este texto com as palavras de um célebre astrônomo: Carl Sagan, que percebeu – um pouco depois de Tintim e seus amigos – a pequenez de nosso “Pálido Ponto Azul”.

O PÁLIDO PONTO AZUL - CARL SAGAN - NARRAÇÃO: GUILHERME BRIGGS


Texto: Carmem Toledo
(cidadã do Universo)
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