terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Bianca Castafiore, o Rouxinol Milanês

Bianca Castafiore apareceu pela primeira vez em 05 de janeiro de 1939, nas páginas do Le Petit Vingtième. Seu début aconteceu na página 12 de "O Cetro de Ottokar", então publicado semanalmente como "Tintin en Syldavie". Logo em sua estreia, a personagem já demonstra seu principal atributo, cantando um trecho da Ária das Jóias, da ópera Fausto, de Charles Gounod.

Assista a um clipe da Ária das Jóias abaixo

De origem italiana, como sugere seu nome, a diva da ópera tem 45 anos de idade, segundo com Hergé. O título "Rouxinol Milanês" vem de sua ligação com a casa de ópera La Scala, em Milão. O nome Bianca Castafiore significa, literalmente "branca casta-flor". É em sua homenagem que o Prof. Girassol batiza uma nova categoria de rosas brancas, no álbum que também leva seu nome.

Bianca está sempre acompanhada de sua camareira Irma e do pianista Igor Wagner. Irma faz sua estreia em "O Caso Girassol". Wagner aparece pela primeira vez no mesmo quadrinho de estreia da Castafiore, sem dar uma palavra. Ambos terão participação recorrente em outros álbuns, sendo o de maior destaque "As Jóias da Castafiore".



Inspirações

A primeira referência de Hergé para a criação da Castafiore foi sua tia Ninie, que embalou sua infância com um canto estridente acompanhado de piano. A performance não contribuiu para o gosto do jovem Georges Remi pela a música clássica. Na verdade, ela talvez o tenha levado ao total desinteresse pela ópera, que Hergé considerava uma forma de expressão artística bastante ridícula e além de credibilidade. "Ópera me aborrece, confesso, para minha grande vergonha", admitiu, em entrevista a Numa Sadoul. "Além do mais, me faz rir". A partir desse estereótipo, Hergé criou um arquétipo de cantora que faz rir.

Castafiore também teve forte inspiração na cantora lírica Maria Callas (1923-1977), conhecida como La Divina. Nos anos 1950, a renomada soprano norte-americana era presença certa nas páginas da Paris-Match, uma das fontes favoritas de Hergé. Apesar de não ter influenciado diretamente na criação de Castafiore - afinal, em 1939, ela ainda não tinha aparecido na mídia - Callas serviu de referência para Hergé no desenvolvimento da personagem para os álbuns posteriores. Por exemplo, o papel de Castafiore em "Perdidos no Mar", onde ela é convidada de honra no iate do Marquês de Gorgonzola, pode ser comparado ao romance de Maria Callas com o magnata grego Aristóteles Onassis, que também possuía uma famosa embarcação.

Outras cantoras da época são citadas como possíveis referências à criação da Castafiore, porém, as evidências são insuficientes. Renata Tebaldia (1922-2004), por exemplo, era muito jovem quando a personagem apareceu, enquanto Clara Clairbert (1899-1970) nunca cantou Marguerite em Fausto.

Maria Callas e Aino Ackté
Contudo, há um nome que pode, sim, ter servido de inspiração inicial para Hergé. Aino Ackté, soprano finlandesa (1876-1944), estreou em 1987 na Grand Ópera de Paris - que inspirou o visual do teatro de "As 7 Bolas de Cristal" - no papel de Marguerite. Ela venceu uma competição de ópera com Fausto, que gravou várias vezes, e ganhou fama internacional. Quando cantou  no Metropolitan, de Nova York, o fotógrafo oficial da ópera era um belga de nome Dupont, como um dos detetives de Hergé seria chamado pela primeira vez "O Cetro de Ottokar" - antes, a dupla era conhecida como X33 e X33-Bis.

Em 1912, Ackté lançou o festival de ópera  do castelo de Savonlinna (Olavinlinna), construção na Finlândia Oriental que foi uma das inspirações para a criação do castelo de Kropow, na Sildávia, e aparece no álbum de estreia de Castafiore. Não se sabe se Hergé realmente conheceu Ackté, seja pelas páginas das revistas e jornais, ou se assistiu a alguma de suas apresentações, o que não é improvável. Mas o fato é que a teoria é bastante convincente, e pode ser reforçada com mais uma possível coincidência: o nome da irmã de Aino era Irma.

Curiosidades

:: Bianca Castafiore aparece nos álbuns "O Cetro de Ottokar", "As 7 Bolas de Cristal", "O Caso Girassol", "Perdidos no Mar", "As Jóias da Castafiore", "Tintim e os Pícaros" e nos esboços de "Tintim e a Alfa-Arte". Sua voz pode ser "ouvida" no rádio em "O Ídolo Roubado", "Tintim no País do Ouro Negro" e "Tintim no Tibete", o Capitão Haddock imagina seu canto em "Voo 714 para Sydney" e menciona sua famosa ária em "Rumo à Lua".


:: Não é só uma rosa que leva o nome da cantora. Um asteroide descoberto pelo astrônomo belga Sylvain Arend em 1950 foi batizado como 1683 Castafiore.

:: A esmeralda que vira o centro das atenções no álbum "As Jóias da Castafiore" é um presente do Marajá de Gopal. O personagem, tido como um dos supostos pretendentes da cantora, não aparece nas aventuras de Tintim, mas tem grande participação em um dos álbuns de Jo, Zette e Jocko, "O Vale das Cobras".

:: Spoilers à frente: Apesar de conseguir quebrar um vidro à prova de balas no filme de Spielberg, nos álbuns Castafiore não vai tão longe. Hergé reconheceu a "limitação" da voz humana, mesmo a mais estridente, demonstrando isso na estreia da personagem, quando os vidros blindados do carro em que ela se encontra permanecem intactos, para alívio de Tintim.

"O Cetro de Ottokar", © Casterman/Hergé/Moulinsart
:: Bianca Castafiore já apareceu algumas vezes no cinema. Foi interpretada pela atriz Jenny Orléans no longa "Tintim e as Laranjas Azuis" (1964); teve uma participação no longa "O Lago dos Tubarões" (1972); no filme "As Aventuras de Tintim" (2011), a atriz Kim Stengel interpretou a personagem em captura de movimentos, e a soprano Renée Fleming gravou a canção de Castafiore no palácio de Omar Ben Salaad.

Jenny Orléans no filme de 1964 e a Castafiore de Steven Spielberg.
:: Curiosamente, no filme de 2011, a música cantada por Castafiore não é a Ária das Jóias, que está presente em todos os álbuns em que ela aparece. A personagem apresenta uma mescla de duas árias, entoando "Je jeux vivre", da ópera Romeu e Julieta, de Gounod, junto com a introdução de "Una voce poco fa", do Barbeiro de Sevilha, de Rossini.

:: No Brasil, a personagem foi dublada por Geisa Vidal na série da Nelvana e no longa de animação "O Lago dos Tubarões". No filme de 2011, ganhou a voz de Márcia Coutinho.

Evolução

Castafiore surgiu como uma mera personagem secundária, mas, parece que Hergé viu algum potencial na excêntrica cantora, cujas notas intimidam qualquer um. Não devemos julgar que Bianca cante mal - apesar dela passar por um momento obscuro em sua carreira, no segundo álbum em que aparece ("As 7 Bolas de Cristal"), quando canta em um show de variedades onde também se apresentam um ilusionista e um atirador de facas... Castafiore tem seu talento reconhecido ao redor do mundo, então, é possível afirmar que são apenas determinados personagens, como Milu, Haddock e o próprio Tintim, que não suportam seu estilo musical, refletindo o gosto de seu criador. O Capitão, desde a primeira vez que a escuta, 'lembra de um ciclone que se abateu sobre seu navio quando navegava pelo mar das Antilhas'...

Em "O Caso Girassol", Bianca Castafiore é descrita como "a mais célebre cantora", "sublime no papel de Marguerite", e tem como admiradores autoridades como o coronel Sponsz. É aqui que ela mostra sua coragem e lealdade, ao se arriscar para proteger os amigos do perigoso coronel, que é citado como um de seus possíveis affairs em "As Jóias da Castafiore". No álbum que leva seu nome, fica visível o afeto não correspondido do Prof. Girassol, que até nomeia uma de suas flores em homenagem à diva, e a cada vez mais forte aversão do Capitão Haddock à cantora, que nunca acerta seu nome. Ironicamente, os casal será envolvido em uma fofoca sobre um suposto romance - e casamento!


Ainda em "As Jóias da Castafiore", a dama da ópera é o centro das atenções, seja pela preocupação exagerada com suas preciosas jóias, seja pelo desfile de moda a cada cena, com direito a peças de estilistas famosos como Tristian Bior - uma referência ao francês Christian Dior. No álbum "Perdidos no Mar", ela se vê envolvida com o misterioso Marquês de Gorgonzola, um dos disfarces de Rastapopoulos, que deveria voltar a ter contato com ela em "Tintim e a Alfa-Arte", na pele do mago Endaddine Akass. Essa relação com figuras vilanescas termina em "Tintim e os Pícaros", sua última aparição oficial, quando Castafiore é feita de isca pelo general Tapioca e coronel Sponsz para atrair Tintim, Haddock e Girassol a San Theodoros.

O extenso e elegante guarda-roupas de Bianca Castafiore

Castafiore é a única mulher a ter algum destaque nas aventuras de Tintim. Hergé nunca focou em romances, nem se preocupou em incluir personagens femininas de grande relevância em suas histórias, o que até hoje gera acusações de misoginia. Mas, olhando para este único exemplar do "sexo frágil", vemos que Hergé criou uma uma mulher forte, à frente do seu tempo. Pode não ser bonita, mas de que importa a aparência, quando se é elegante, independente e competente no que faz?

Bianca Castafiore tem sentimentos, que são demonstrados desde o beijo de amizade no professor ("As Jóias da Castafiore"), até um abraço caloroso - rodeado de coraçõezinhos - quando é resgatada pelo Capitão ("Tintim e os Pícaros"). Mas, apesar dos muitos admiradores que coleciona, a cantora só tem olhos para uma pessoa, e sua ária favorita deixa isso bem claro: 'ah, eu rio ao me ver tão bela neste espelho...'

:: Escute agora a famosa "Ária das Jóias", da ópera Fausto, de Gounod, na voz de Bianca Castafiore:


Com informações da Wikipédia, Tintinologist.org, Tintin.com.
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5 comentários:

  1. Acho interessante a relação dela com o Capitão Haddock. Mesmo esquecendo o nome do Capitão, acho que a Castafiore era apaixonada por ele...

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    1. Pode ser que haja um sentimento mesmo... rsrs

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  2. Excelente artigo! Castafiore é mesmo um personagem bastante carismático! Concordo com a observação feita por Bruno (risos)...

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  3. "Miisericóórrdia!" Até hoje, eu rio disso quando ela falava. kkkkkk

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  4. Confesso que essa postagem me fez refletir mais sobre a questão da "misoginia" na obra de Hergé. Não havia ainda parado para pensar na grande força e independência com que ele presenteou a única personagem feminina relevante, características essas que a tornaram ainda mais única, e extremamente marcante.

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