quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Tintim no Cinema: O Lago dos Tubarões

Tintim e o Lago dos Tubarões (Tintin et le lac aux requins) é o segundo longa de animação baseado nos personagens de Hergé. Produzido pelos estúdios Belvision, que anteriormente já haviam trabalhado em uma série de desenhos e um filme animado estrelado por Tintim, o filme tem roteiro de Greg e direção de Raymond Leblanc. O filme, que tem aproximadamente 75 minutos de duração, estreou em 13 de dezembro de 1972.


Sinopse

Tintim, Milu e o Capitão Haddock viajam à Sildávia para visitar o Prof. Girassol, que está hospedado às margens de um lago misterioso. Os Dupondt acompanham a viagem, que logo de início é interrompida por um estranho desastre de avião. A salvação vem de um casal de crianças, Niko e Nouchka, e seu cachorro, Gustav. Uma intriga policial se desenrola ao redor do lago que dá nome à história. O lugar, na verdade, abriga o esconderijo de um poderoso e conhecido vilão, que está de olho na mais nova invenção do cientista: uma máquina capaz de reproduzir objetos. O plano do criminoso é usar o invento para fazer cópias perfeitas de obras de arte, e caberá a Tintim e seus novos amigos impedir isso.


Histórico

Depois de "O Templo do Sol", os estúdios Belvision decidiram trabalhar em um novo longa-metragem animado baseado nas aventuras de Tintim. Hergé resolveu não se envolver diretamente, mas designou alguém de confiança para escrever o roteiro: Michel Regnier, seu amigo pessoal, mais conhecido como Greg. A decisão de não basear o filme em um dos álbuns deu mais liberdade ao roteirista, o que livraria o filme de comparações com a obra original.

"O ponto de partida deste filme foi inspirado na realidade", explicou Greg (foto à esquerda). "Na época, aldeias inteiras foram submersas sem serem destruídas para a construção de barragens. Havia algo de fantasmagórico nestas aldeias engolidas onde tudo foi deixado inalterado, incluindo os sinais de trânsito... Todo mundo parecia achar que era normal, mas a mim, isso me fascinava." Com informações do Devil Dead.

O filme alcançou o terceiro lugar nas bilheterias belgas em 1972, perdendo apenas para "O Poderoso Chefão" e "Laranja Mecânica". O sucesso fez Raymond Leblanc comentar com um jornalista americano: "Até agora, houve apenas um estúdio no mundo capaz de produzir filmes de animação, e foi Disney. Mas agora, há dois".

Hergé e Raymond Leblanc.
A produção envolveu 150 pessoas, que trabalharam durante 15 meses. A United Artists planejou distribuir o filme nos Estados Unidos, mas, por algum motivo, desistiu. Será que, se tivesse estreado nos anos 1970 nos EUA, Tintim teria mais êxito por lá, ou a situação seria ainda pior?!

Inspirações

Apesar de não ser baseado em nenhum dos álbuns assinados por Hergé, o roteiro revisita momentos de algumas das aventuras de Tintim. Uma pérola é roubada de um museu e substituída por uma cópia, assim como acontece com o fetiche Arumbaya em "O Ídolo Roubado"; até o vigia do museu está lá, pode reparar. Tintim e Haddock vão à Sildávia a convite do Prof. Girassol, como em "Explorando a Lua". Depois, Tintim encontra Bianca Castafiore e pega carona com ela em uma estrada na Sildávia, semelhante ao que ocorre em "O Cetro de Ottokar", no primeiro encontro do repórter com a cantora. O submarino-tubarão do Prof. Girassol, que aparece em "O Tesouro de Rackham, o Terrível", volta a funcionar aqui, sob o comando do Capitão Haddock. Tudo isso sem contar elementos que veríamos apenas em "Tintim e a Alfa-Arte", como a falsificação de obras de arte e o retorno de Rastapopoulos.


Pode-se dizer também que o filme tem ligação com outra criação de Hergé, "Jo, Zette e Jocko" (Joana, João e o macaco Simão), uma série estrelada por um casal de irmãos e um chimpanzé de estimação. No longa, o trio é substituído por Niko, Nouchka e seu cachorro Gustav. Mas as semelhanças não param por aí: em "O Manitoba não Responde", publicado em 1936, Jo e Zette são prisioneiros de um cientista maluco em um esconderijo embaixo d'água e usam um carro (tanque) anfíbio para escapar, assim como acontece em "O Lago dos Tubarões". Na sequência, "A Erupção do Karamako", também há uma cena em que os heróis precisam escapar do afogamento e da ameaça de explosão causados pelo vilão.

Adaptação para os Quadrinhos

No ano seguinte ao seu lançamento, 1973, o roteiro foi adaptado para um álbum em quadrinhos de 44 páginas. Sem levar a assinatura de seu criador, a obra foi produzida pelos Studios Hergé. O jornal Le Soir publicou as tirinhas em preto-e-branco entre dezembro de 1972 e janeiro de 1973. De acordo com o site Naufrageur, uma versão em cores foi publicada simultaneamente no Journal de Tintin. Esta versão, com imagens retiradas do filme, foi a mesma utilizada para o álbum. O visual é bem diferente dos álbuns oficiais, com cenários e backgrounds no estilo filme, e personagens redesenhados e coloridos. Uma mistura que distancia a obra do clássico estilo de linha clara das obras originais de Hergé.

O álbum do filme foi publicado em português, respectivamente, pelas editoras Record (1975), Verbo (1997) e Público (2004). Também apareceu na revista portuguesa "Tintin" em 1976.


Opinião

O filme deve ter sido bem divertido na época que foi lançado. Hoje, vale assistir pela curiosidade de ver uma aventura inédita de Tintim. O roteiro não se compara à genialidade das obras oficiais de Hergé, é claro. Tem seus bons momentos de suspense e humor, não posso negar, mas, no geral, é uma história superficial. Infantil, com algumas situações que forçam a barra (tanto no humor como na "ação"), o longa conta com uma boa animação, considerando que foi feito por um estúdio relativamente pequeno, e fora dos Estados Unidos. Os efeitos aquátivos são criativos - a câmera mergulha e emerge com frequência - e os movimentos dos personagens são bem-executados - as cenas de golfe são um bom exemplo disso. A trilha sonora agrada, apesar de fazer falta em muitas cenas que são simplesmente "mudas". As canções de Niko e Nouchka são de dividir opiniões, sem dúvidas - digamos que 'eu gosto do meu burro e ele gosta de mim' não é das composições mais inspiradas... Em resumo, a ideia do filme é boa, tornando "Tintim e o Lago dos Tubarões" um item obrigatório para colecionadores, mas que não serve para introduzir ninguém ao universo de Hergé. Afinal, não é um legítimo Hergé.


Curiosidades

:: Este foi o último filme de Tintim antes da adaptação de Spielberg, lançada em 2011.

:: O bilionário Lazlo Carreidas, do álbum "Voo 714 para Sydney", é visto na cena do aeroporto, no início do filme. Na mesma cena, uma funcionária faz a chamada dos passageiros "Tintim, Milu e Haddock". Será que o fox-terrier também tem passaporte?

:: É interessante notar como o Prof. Girassol está sempre à frente de seu tempo. Seja pisando na lua antes de qualquer homem, seja criando a televisão a cores, o cientista não cansa de inovar. E aqui não é diferente: além de um projetor de imagens em 3D (holograma?), Trifólio cria uma espécie de impressora 3D (na verdade, uma fotocopiadora 3D). É ou não é um gênio?

A cobiçada máquina de cópias em 3D do Prof. Girassol
:: Dúvida (1): O motorista de Bianca Castafiore é o seu pianista, Igor Wagner? Não sei, porque apesar da semelhança, aqui ele se chama Walter...

:: Dúvida (2): Por que os vilões têm a mania de não concluir logo o serviço e sempre deixam uma brechinha para o mocinho escapar? Por que Rastapopoulos tem que dar uma hora para Tintim se safar antes da explosão do vilarejo submarino?


:: Segundo o Blogue de BD, o filme foi lançado no extinto Cinema Condes, de Lisboa, Portugal. A adaptação para os quadrinhos foi traduzida para o português após os esforços do editor José Luis Fonseca. Quando os álbuns esgotaram e a editora Verbo quis reeditar, os detentores dos direitos da obra de Hergé inexplicavelmente recusaram.

:: Um álbum de cromos com cenas do longa foi lançado em 1973 pela Agência Portuguesa de Revistas e distribuído pela A.F. Victor, de Lisboa. Com 28 páginas, 182 cromos e um pôster central. Foi reeditado em 1983 pela Distri Editora, de Portugal, em parceria com a RGE, do Brasil (o que faz crer que o álbum também foi lançado por aqui), em formato menor, com 36 páginas e o mesmo número de cromos, agora autocolantes. Veja mais imagens nos blogs Caderneta de Cromos e  O Tintinófilo.

:: O filme foi lançado em DVD no Brasil pela PlayArte em 2012 - saiba mais, e chegou ao serviço de streaming Netflix em outubro de 2015.

:: A versão dublada resgatou algumas vozes originais da animação da Nelvana. Confira a lista do Dublanet:

Estúdio: Delart.
Elenco:
Jacques Careuil (Tintin): Oberdan Jr.
Claude Bertrand (Capitao Haddock): Isaac Bardavid
Henri Virlojeux (Professor Girassol): Orlando Drummond
Guy Pierrault (Dupont): Darcy Pedrosa
Paul Rieger (Dupond): Márcio Simões
Serge Nadaud (Rastapopoulos): Ionei Silva
Jacques Vinitzki (Niko): Patrick de Oliveira
Micheline Dax (Bianca Castafiore): Geisa Vidal
Locutor: Pádua Moreira
Outras vozes: Jorgeh Ramos, Miguel Rosenberg

Hergé contempla uma arte do filme.
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