terça-feira, 18 de agosto de 2015

Tintim: A amizade como arma e escudo - Parte Final

Finalmente chegamos à quarta e última parte do artigo escrito pela leitora Carmem Toledo, discutindo a amizade presente nos álbuns de Tintim à luz da Filosofia. Confira as partes anteriores aqui, e boa leitura!

Os melhores amigos de Tintim: a amizade como arma e escudo

O leitor percebeu que [até aqui] não foram mencionados outros personagens, como Dupond e Dupont, Professor Girassol, Bianca Castafiore e os vilões. Nossas atenções devem se voltar aos dois melhores amigos de Tintim, aqueles que mais estão presentes em sua vida: Milu, com sua inocência de animal irracional, trabalha com o instinto, auxiliando seu dono em todos os momentos, como já foi dito anteriormente. Capitão Haddock é a manifestação dos impulsos emocionais ditados pelo momento. Tintim é o raciocínio lógico, a ética em exercício. O encontro proporcionado pela amizade dos três representa a formação do herói, a totalidade da força, o poder possível reunido em três seres finitos e comuns.


Como decidi “me aventurar” e recorrer à Filosofia para explicar a ideia de amizade, acho justo citar alguns filósofos célebres para reforçar sua relação com os valores adotados em sociedade e refletidos nas obras artísticas e literárias. Não pretendo forçar ninguém a enxergar “As aventuras de Tintim” como uma obra filosófica! Desejo apenas fazer com que os admiradores de Tintim percebam o quanto e há quanto tempo a necessidade de companheirismo é pensada – antes mesmo que os tataravós de Sir Francis Haddock viessem a existir!

Para início de conversa, Cícero, nos tempos antigos, foi um dos principais filósofos a tratar da amizade, afirmando que esta é própria do ser humano e somente se pode encontrar entre os bons. Escrevia ele:
“Eu só posso aconselhar-vos a que a coloqueis sobre todas as conveniências da vida; porque nenhuma coisa tão conforme à natureza, nem tão a propósito para os casos favoráveis ou adversos. Mas em primeiro lugar sou de parecer que não pode haver amizade senão entre homens de bem”¹
A amizade, portanto, segue as leis da natureza e se faz presente nos momentos bons e maus. De fato, não é somente durante os perigos que Tintim se vê amparado pelos amigos, mas também nos momentos de descanso e de comemoração, como pode ser visto no final de “O tesouro de Rackham, o Terrível”, quando está com Professor Girassol no evento promovido por Capitão Haddock intitulado “O Salão do Mar”. Como bem diz a fala do Capitão, parafraseando Shakespeare, “tudo bem quando acaba bem”.

"O Tesouro de Rackham, o Terrível", página 62.

Em outras palavras, a filosofia apresenta o pensamento de que a natureza, com sua perfeição, fez com que os homens precisassem uns dos outros, independente das circunstâncias. Também é possível explicar isso recorrendo às palavras do filósofo Étienne De La Boétie:
“... a natureza, ministra de Deus e governante dos homens, fez-nos todos da mesma forma e, ao que parece, na mesma fôrma, para que entreconhecêssemos todos como companheiros, ou melhor, como irmãos. E se, fazendo as partilhas dos presentes que ela nos dava, cedeu alguma vantagem de seu bem ao corpo ou no espírito, a uns mais que aos outros, (...) é de se crer que, atribuindo assim as partes maiores a uns, aos outros as menores, queria fazer lugar ao afeto fraternal para que ele tivesse onde ser empregado, tendo uns o poderio de dar ajuda, os outros necessidade de recebê-la.”²
Assim sendo, a amizade é o elo que reúne esses três elementos essenciais que compõem o heroísmo: o instinto a ser seguido, o impulso vigoroso e a atividade refletida. Os amigos se completam. Esta é a arma e o escudo de Tintim. Não são necessários superpoderes, fórmulas mágicas, transformações irreais, imortalidade ou força bruta. A amizade ajuda Tintim a superar as dificuldades, sem se distanciar de sua essência puramente humana. Ela é o poder que faz com que o herói transcenda a dor, sem desejar a infinitude dos super-heróis irreais. Desta forma, aceita seus limites humanos e se distancia da miséria daquele que, desprezando sua humanidade, tenta se assemelhar aos deuses – o que o tornaria desfigurado e vulnerável a servir às forças malignas que se aproveitam da fraqueza moral da potência sem limites, tão duvidosa para o próprio super-herói, que o torna escravo da inconstância de sua identidade. Para confirmar essa tese, é justo citar, mais uma vez, La Boétie:
“E de resto, se essa boa mãe [a natureza] deu-nos a todos a terra inteira por morada, alojou-nos todos na mesma casa, figurou-nos todos no mesmo padrão, para que cada um pudesse mirar-se e quase reconhecer um no outro; (...) e se tratou por todos os meios de estreitar e apertar tão forte o nó de nossa aliança e sociedade; se em todas as coisas mostrou que ela não queria tanto fazer-nos todos unidos mas todos uns – não se deve duvidar de que sejamos todos naturalmente livres, pois somos todos companheiros; e não pode cair no entendimento de ninguém que a natureza tenha posto algum em servidão, tendo-nos posto todos em companhia.”³
Tal é a causa do vigor e da incessante esperança que sempre está na base de todas as aventuras do herói belga: Tintim é livre, pois é uma criatura da natureza, um ser comum, com qualidades e fraquezas, que possui companheiros que o complementam e fortalecem. Segundo o pensamento aristotélico, Tintim é feliz uma vez que, sem amizade, ninguém é feliz. São as diferenças existentes entre ele e seus amigos que os fazem tão semelhantes e virtuosos.
“A amizade também ajuda os jovens a afastar-se do erro, e aos mais velhos, atendendo-lhes às necessidades e suprindo as atividades que declinam por efeito dos anos. Aos que estão no vigor da idade ela estimula à prática de nobres ações, pois na companhia de amigos — 'dois que andam juntos' — os homens são mais capazes tanto de agir como de pensar.”
Nota-se a riqueza de uma “simples HQ” pelos valores transmitidos na base da construção de sua trama. Tintim, mais que um repórter aventureiro, é a cristalização dos pensamentos mais profundos daqueles que viveram muito antes de seu criador; o exemplo lúdico da ciência que questiona o mundo e os homens; a prova de que o maior ingrediente secreto para a criação de um herói está ao alcance de todos os mortais.

Carmem Toledo
Fã de Tintim há 20 anos e, como ele, sedenta de boas histórias

Notas
1. CÍCERO, Diálogo sobre a Amizade, Cap. V, p. 27
2. LA BOÉTIE, Discurso da servidão voluntária, p. 17
3. Idem, ibidem.
4. ARISTÓTELES, Ética a Nicômaco, p. 170
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