segunda-feira, 29 de junho de 2015

Tintim: A amizade como arma e escudo - Parte 3

Continuando a série de artigos assinados pela leitora Carmem Toledo (confira a parte 1 e a parte 2), desta vez vamos mergulhar um pouco mais nos papéis dos melhores amigos de Tintim como complemento de sua personalidade.

Milu - o fiel companheiro de aventuras

          Milu é um simpático cãozinho da raça Fox Terrier, branco e aparentemente jovem. Adestrado, obedece aos comandos de Tintim e o socorre sempre que está em apuros. Nos quadrinhos, seus “pensamentos” podem ser lidos, demonstrando seu ponto de vista canino sobre as situações em que seu dono se envolve. Seguem alguns exemplos desses momentos:


          Na animação seriada canadense e no longa-metragem norte-americano, ele apenas late e resmunga, como um cão normal. Entretanto, possui expressões faciais que deixam claros seus sentimentos e suas “opiniões” sobre certos acontecimentos e diálogos.
          O cãozinho de Tintim é o protótipo do companheiro inseparável do herói, que sempre está por perto, não importando as consequências. Podemos compará-lo ao Capeto (lobo companheiro do Fantasma) e ao Lobo (fiel escudeiro do Vigilante Rodoviário). Milu, Capeto e Lobo são os amigos verdadeiros, de todas as horas, que sempre estão ao lado de seus parceiros, mesmo que seja em silêncio.

Capitão Haddock – a energia dos raios e trovões

          Capitão Haddock pode ser considerado o contraponto de Tintim: bruto, sempre com os nervos à flor da pele, alcoólatra, atrapalhado, ectoplasma, troglodita, emplastro (desculpem-me... foi a empolgação influenciada pelo personagem), representa toda a vazão emocional de Tintim, que se mostra sempre muito racional e comedido.

          A brincadeira feita no parágrafo acima foi um exemplo dos gritos de raiva do personagem, que inicia as exclamações com xingamentos, como “mercenários”, “pamonhas”, “flibusteiros”¹ e “piratas” e acaba por incluir palavras com significados que nada têm a ver com ofensas, como “cornamusas”², “anacoluto”³ e “escolopendra”. Um grande número de exemplos disso pode ser visto nos álbuns “O caranguejo das pinças de ouro” e “O segredo do Licorne”.

          Capitão Haddock, ao contrário de Tintim, mostra-se ignorante em diversas situações, como quando se recusa a levar a sério a empreitada organizada pelo Professor Girassol em “Rumo à Lua”, o que, inclusive, faz com que este se ofenda terrivelmente. Seu aspecto físico também contrasta bastante com o de Tintim: grande e barbudo, aparentando ser mais velho que o repórter, Capitão Haddock parece desleixado e rude. No entanto, ao invés desses traços de sua personalidade atrapalharem as missões de Tintim, acabam ajudando-o – ainda que levem a um maior número de confusões que o esperado – , sem contar os momentos cômicos proporcionados pelas explosões de humor do Capitão.

          O personagem parece ser um complemento ao perfil pacífico e racional do herói. Poderíamos pensar que Tintim seria “Yin”: a energia feminina, passiva e ligada à terra; Capitão Haddock, “Yang”: o princípio masculino, ativo e ligado ao céu, resultando no equilíbrio da trama – e que curioso: o céu é justamente aquilo que orienta os navegantes!

Notas
1. Trapaceiro
2. Gaita de foles
3. Figura de linguagem que significa a quebra na organização gramatical de uma frase.
4. Segundo o dicionário Aulete digital, “s. f. || (bot.) gênero de fetos, do grupo das polipodiáceas; língua-cervina. || (Zool.) Articulado, da classe dos miriápodes. [Tem vinte e um ou vinte e três pares de patas, e o corpo dividido em igual número de segmentos; tem quatro pares de olhos.] F. lat. Scolopendra
5. Creio que se deve ler esta palavra com cuidado, pois penso que, no caso de Tintim, a passividade não deve ser interpretada literalmente como ausência de atuação ou reação, mas como ponderação.


Continua na próxima postagem...
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