domingo, 25 de janeiro de 2015

TPT Entrevista: Jean-Pierre Talbot, o Tintim do cinema

Jean-Pierre Talbot foi Tintim no cinema há 55 anos, e ainda hoje é lembrado pelos fãs como o único a ter dado uma face real ao nosso querido repórter. O jovem belga foi descoberto pela produção do primeiro filme com atores reais baseado na obra de Hergé, e aprovado pelo criador de Tintim para dar vida ao personagem nas telonas em dois longas, "O Mistério do Tosão de Ouro" (1961) e "Tintim e as Laranjas Azuis" (1964). O Tintim por Tintim teve a honra de conversar com o hoje aposentado - porém sempre ativo, diga-se de passagem - Tintim do cinema. Confira a entrevista a seguir.

TPT: Antes de interpretar Tintim, qual era sua relação com a obra de Hergé?

JPT: Uma relação não de fã, mas muito simples e leal (eu poderia dizer uma certa intimidade). Como toda criança, eu descobri o mundo através de álbuns: uma verdadeira aula de geografia (naquela época, não existia televisão). Além disso, as aventuras eram emocionantes, dinâmicas, simpáticas e engraçadas. Os genuínos valores humanos eram desenvolvidos.

Como surgiu o convite para ser o primeiro ator a interpretar Tintim?

O produtor procurou por três anos, mas sem sucesso, apesar dos apelos por meio da imprensa e dos inúmeros castings. "Já que Tintim não vem a mim, eu vou procurá-lo", ele disse. E enviou pessoas em busca de um potencial Tintim, principalmente na França e na Bélgica. Eles percorriam lugares públicos, saídas de escolas, movimentos de juventude... Eu estava fazendo um trabalho de estudante na praia de Ostende: monitor de esportes (minha especialidade) para crianças (eu me destinava ao ensino). Fui abordado, dei meu endereço e posei para uma foto que foi enviada ao produtor. Três semanas depois, fui chamado a Paris para um teste e, duas semanas depois, para outro mais específico. E... fui escolhido!

Jean-Pierre Talbot e sua incrível semelhança com o personagem criado por Hergé.
Antes disso, ninguém, realmente ninguém tinha me dito que eu parecia Tintim; depois, para todo o mundo isso tornou-se evidente. Não havia semelhança. Fui beneficiado por qualidades esportivas evidentes, e não me saía mal na frente das câmeras. Outro elemento decisivo e que o produtor havia previsto: eu nunca tentei interpretar o personagem Tintim - agi como se a aventura acontecesse comigo e... funcionou. Além do rosto de Tintim, eu também tinha seu corpo e seu coração - eu vivi como Tintim!

Eu estava muito animado com Hergé - depois de nosso primeiro encontro, ele disse ao produtor: "SIM, é ele!". Ele não disse "ele parece" ou "ele cai bem". Não, ele me reconheceu como sendo Tintim. Algumas horas mais tarde, durante uma reportagem para a Paris Match, caminhávamos pelas ruas de Paris. Eu estava vestido como Tintim, com o topete e as calças de golfe. Pela primeira vez, fui confrontado com o público. Foi uma loucura. A multidão, apesar de não ter sido informada, me reconheceu e pediu autógrafos. Eles queriam que eu assinasse Tintin. Eu não sabia o que fazer. Então Hergé, muito paternalmente, me autorizou e até me incentivou a assinar "TINTIN". Primeiro ele me reconheceu, depois me adotou. Aí eu soube que jogo estava vencido.

Com exceção de duas ou três "premières", eu nunca me apresentei em público vestido como Tintim. Foi inútil: eu era Tintim! Mesmo agora, para minha grande surpresa, 55 anos depois, a magia continua.

Como foi a preparação para interpretar um personagem já conhecido e amado em vários países?

Me preparei para o filme durante seis meses: mergulho, judô, ensaios com Milu, testes de figurino, aulas de motociclismo, promoção do filme (TV, rádio, reportagens diversas). Eles queriam que eu tomasse aulas de teatro e mímica. Eu me opus porque aquilo me fazia perder a espontaneidade.

Jean-Pierre experimenta a aprovação dos fãs.
Eu estava relaxado pois não me faltava nada, não me importava de ser julgado bom ou mau ator. Por outro lado eu me sentia investido de uma missão estressante: era meu dever não decepcionar as crianças.

Você teve alguma participação criativa no filme, ou na concepção do personagem?

Acho que imprimi muito bem no filme minha energia e meu bom humor ... Eu conhecia Tintim melhor que os outros atores e até mesmo que o diretor e o produtor do filme. Muitas vezes, durante as filmagens, eu fiz mudarem o roteiro: "Mas Tintim jamais faria isso!" - "O que ele faria então?" - "Apenas isso...". Minha opinião sempre foi autoridade. O mesmo valia para o figurino e o penteado... Enfim, sem me assumir como Tintim e sem ter consciência disso, eu o tinha na pele.

Nos filmes, o Capitão Haddock foi interpretado por Georges Wilson e Jean Bouise, respectivamente. Como foi trabalhar com dois atores diferentes?

Eu me dei muito bem com Jean Bouise e Georges Wilson. Georges era maior, mais truculento. Aos 17 anos, eu tomei a liberdade de lembrá-lo que a estrela era Tintim, porque pouco a pouco ele teria me ofuscado. Jean era mais poético, sensível.

Jean-Pierre Talbot atuando ao lado de Georges Wilson (1961) e Jean Bouise (1964).
A biografia em quadrinhos "The Adventures of Hergé" conta que a personagem Bianca Castafiore acabou entrando no segundo filme (Tintim e as Laranjas Azuis) devido a uma promessa que Hergé teria feito ao sobrinho da atriz Jenny Órleans. É verdade?

Não creio, mas não tenho conhecimento de todos os segredos do produtor. Hergé veio ao estúdio e não manifestou nada de especial à Castafiore.

Curiosidade: mais de um cão foi utilizado para representar Milu nos dois filmes? Como foi contracenar com um cachorro?

Nós utilizamos 7 cães, os mesmos para os dois filmes. Todos se assemelhavam fisicamente. Não podemos pedir a um cão que atue. Com base nas necessidades do roteiro, utilizávamos um Milu mais dinâmico para as cenas normais ou outro mais carinhoso quando Milu deveria estar triste ou cansado... Outro deveria morder os "bandidos" ou saltar em meus braços. Os outros estavam de reserva, imposta pelas companhias de seguros. Todos foram chamados Milu mas, obviamente, o Milu número 1 foi o mais utilizado - ele evoluiu livremente à sua maneira, mas sempre próximo de meus movimentos.

Milu é um Fox terrier do pêlo duro. Estes cães nunca são inteiramente brancos. Eles têm uma mancha cinzenta e outra castanha. Por isso, descoloriram Milu em uma famosa marca parisiense, na rue du Faubourg Saint Honoré [conhecida pelas luxuosas lojas de marca e a residência oficial do presidente da república].

Qual é o seu filme favorito: 'O Mistério do Tosão de Ouro' ou 'As Laranjas Azuis'?

Obviamente, 'O Tosão de Ouro': cenários grandiosos, reviravoltas, sequências subaquáticas, motos, lutas, helicóptero...

Sabe qual foi a opinião de Hergé sobre os filmes? Ele gostou?

Em uma entrevista, Hergé declarou que, de todas as produções (filmes e desenhos animados), meus filmes eram seus favoritos.

Como foi sua relação com Hergé após a realização dos filmes?

Meu relacionamento com Hergé foi excelente: respeito e amizade. Ele me disse: "Estou feliz, Jean-Pierre, por você nunca desmentir meu personagem". Nós ficávamos felizes em nos ver. Ele também me chamou muito carinhosamente, com destaque para um gentil sorriso, de seu "filho espiritual"!

Jean exibe um retrato ao lado de Hergé, na época da divulgação dos filmes.
É verdade que um novo filme chegou a ser escrito, mas nunca realizado? O que você sabe sobre isso?

Nós sempre conversamos sobre um terceiro filme. Ele seria rodado na Índia... Não sei nada além disso.

Você atuou em outros filmes desde então?

Eu não tentei me tornar um ator. Aos quinze anos, eu tinha optado pela pedagogia. Depois de rodar o primeiro filme, terminei meus estudos. Comecei minha carreira de ensino. Gravei o segundo filme e continuei minha vida como professor. Uma vida normal, em si. Sem dúvida, foi por isso que continuei sendo Tintim no coração do público.

Jean-Pierre Talbot em sala de aula. Imagine ser aluno de Tintim...
Ter interpretado Tintim teve que efeito em sua vida?

Depois de Tintim, minha vida foi muito intensa com minha família, meus amigos, meus esportes, minha escola (eu fui professor e diretor de escola durante 15 anos). Além disso, eu fui iluminado pelo universo de Tintim. Isso me permitiu conhecer celebridades de todos os gêneros, mas principalmente entusiastas de Hergé, desenhistas famosos, tintinófilos. Participei de uma infinidade programas de TV e grandes reportagens. Para meu grande espanto, isso continua com a mesma frequência. Eu também tenho muito orgulho de ter sido o único Tintim do cinema em carne e osso.

Harrison Ford voltou a interpretar Indiana Jones aos setenta e poucos anos, e Leonard Nimoy reviveu o Sr. Spock em participações curtas nos filmes mais recentes da saga "Star Trek". Você aceitaria interpretar um Tintim mais velho caso surgisse a proposta?

Se me oferecessem um pote de ouro para voltar ao papel de Tintim, eu recusaria. Eu me mantive muito esportivo (esqui, tênis, corrida, ciclismo), mas já não sou capaz de correr nem de me locomover como antes. A mente não mudou mas, mesmo "maquiado" e rejuvenescido, sinto que minha imagem não ficaria mais tão próxima do personagem: seria uma traição!

Jean-Pierre, sua esposa Diana e seus cães. Ele é campeão de Bike-Jöring. O esporte é uma de suas paixões.
O que você achou do filme de Spielberg?

Eu me diverti muito. Há algumas ideias geniais, mas também algumas distantes. Milu está perfeito. Tintim beira à perfeição - mas o semblante de Tintim não ficou exatamente como o esperado (pelo menos é isso que dizem os fãs).

Você acha que um filme com atores reais seria mais eficaz do que um longa-metragem em captura de performance?

Eu acho que SIM, mas duvido que o filme tivesse um sucesso correspondente ao mito.

Falando sobre os álbuns, você acha que uma nova aventura de Tintim deveria ser publicado?

NÃO!!!! É a vontade de Hergé!

Jean ao lado de Fanny Rodwell, viúva de Hergé.
Você já visitou o Brasil ou Portugal, dois países de língua portuguesa cheios de tintinófilos?

França, Suíça, Canadá, Espanha... tenho transitado muitas vezes por estes países, convidado para eventos importantes. Se me convidarem para o Brasil, seria um dever para mim aceitar (gratuitamente, mas com as despesas reembolsadas). A dificuldade seria encontrar uma data em minha agenda muito cheia.

O Tintim por Tintim agradece muitíssimo pela entrevista. Gostaria de deixar uma mensagem para os tintinófilos brasileiros?

Viva Hergé! E em breve, quem sabe... prazer em conhecê-los.

Jean-Pierre Talbot em 2015. O Tintim do cinema saúda os fãs brasileiros com uma mensagem em portugês.
:: Para você, tintinófilo brasileiro que só agora está conhecendo o ator, fica o incentivo: procure os filmes estrelados por ele nos anos 60. São produções aprovadas por Hergé e fiéis ao espírito dos quadrinhos, vale a pena matar a curiosidade.

O TPT mais uma vez agradece ao Jean-Pierre pela excelente entrevista, e também a Yves Rodier, que nos colocou em contato. E para finalizar uma, só uma curiosidade: J-P T... - é assim que ele assina, deixando o espaço para as cinco letras que faltam para formar o nome mais conveniente - Talbot ou Tintin.

Fotos: Jack Garofalo (Getty Images); AFP; ADH; Lavoixdunord.
Compartilhe:

5 comentários:

  1. Ótima entrevista! Sem sombra de dúvidas, os filmes estrelados por Jean-Pierre Talbot são muito bons, vale a pena conferir.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Bom saber que gostou! Sim, vale a pena. Espero que alguma distribuidora nacional se interesse em lançar os filmes por aqui um dia.

      Excluir
  2. Adorei a entrevista, parece melhor que eu pensava, superou minhas expectativas, parabéns!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Fico muito feliz! Obrigado, Janaina! )")

      Excluir
  3. Só agora tive oportunidade de ler a entrevista e adorei! Gostei muito de saber um pouco sobre Talbot e as curiosidades dos filmes.
    Parabéns, TPT!!!

    ResponderExcluir

Fique à vontade para soltar o verbo, marujo!

Translate

Veja também

Veja também
Site oficial de Tintim

Arquivo TPT