quinta-feira, 28 de novembro de 2013

TPT Recomenda: As Diabruras de Quick e Flupke

Já está disponível nas melhores livrarias do país o livro As Diabruras de Quick e Flupke, novo lançamento da Globo Livros Graphics, selo da editora Globo dedicado a graphic novels. A dupla de meninos marotos foi criada por Hergé em janeiro de 1930 no Le Petit Vingtième, o mesmo suplemento que lançou a obra mais conhecida do cartunista, e agora faz sua estreia no Brasil em uma edição de encher os olhos.

Com capa dura e mais de 180 páginas, o livro tem acabamento de alta qualidade (veja à esquerda a comparação com dois álbuns de Tintim). A tradução de André Telles manteve os nomes próprios originais intocados, mostrando assim que o ingresso dos personagens no país desconsidera qualquer publicação anterior em língua portuguesa - para quem não sabe, Quick e Flupke já foram publicados como 'Quim e Filipe' e 'Trovão e Relâmpago' em Portugal (saiba mais aqui).

As peripécias de Quick e Flupke acontecem sempre em duas páginas, marcadas por situações cotidianas dos dois garotos em um bairro real de Bruxelas, Marolles (que não chega a ser citado). O conteúdo das historinhas vai da comédia pastelão ao humor nonsense, abordando até mesmo assuntos como drogas e bullying - de forma muito sutil, é claro. Hergé criou uma série dinâmica para o seu tempo, quando as tirinhas já estavam se tornando comuns na Europa. Apesar das décadas, a leitura ainda hoje é daquelas que você começa e não quer mais parar - e dá pra começar de qualquer página... ou de trás pra frente, como eu fiz.

Através das historinhas, a dupla de protagonistas vai se revelando: Quick, o moreno de boina, é um garoto corajoso mas muitas vezes ingênuo, que vez por outra acaba pagando pelo que não fez; Flupke, o loirinho, mais novo porém menos inocente, é dono de ideias mirabolantes e quase sempre mete o melhor amigo em grandes enrascadas. O Agente 15 é outra figura recorrente. Quase um primo dos Dupondt, na aparência e nas atitudes, vê seu lado criança colocado à prova pelos garotos - que às vezes agem com boas intenções. O representante da lei revela-se uma metáfora à superioridade dos adultos, ridicularizados pela ignorância e infantilidade, tão comuns desde os tempos de Hergé.

Nesta primeira parte das 'obras completas de Quick e Flupke', conhecemos um pouco da família (pgs. 19 e 106) e da rotina dos meninos, e descobrimos que a infância dos tempos de Hergé não era muito diferente de pouco mais de uma década atrás, quando a tecnologia ainda não havia substituído as travessuras e brincadeiras de rua. Não tem como não se identificar com o dilema de fazer o dever de casa ou brincar um pouco mais com os amigos (pgs. 8 e 16), ou com o desespero que dá quando você faz uma trapalhada para encobrir outra (pgs. 42 e 136). Que menino nessa idade nunca teve problemas com garotos mais velhos? No caso desses aqui, o cérebro vence a força física (pg. 36). Ah, fosse fácil assim...

Apesar de ter sido publicada em um semanário católico, a série não busca pregar lições de moral. Contudo, é inevitável notar os ensinamentos - às avessas - em HQs como "Quick é pacifista" (pg. 142) e "Caridade evangélica" (pg. 166), ou a mensagem de "O aviso" (pg. 84), uma crítica aos adultos que insistem em não escutar às crianças. Hergé usa um "Drama sem palavras" (pg. 140) para tratar de um tema delicado de ser abordado com crianças até hoje: drogas. Tudo isso sem deixar o humor, a principal combustível da obra, de lado. E como não poderia faltar, claro, há pelo menos uma referência a Tintim (pg. 96), sem contar a pontinha na capa.

Para não dizer que este é um lançamento perfeito, a edição de "As Diabruras de Quick e Flupke" peca por não trazer nenhum material adicional. Se o objetivo não é vender apenas para fãs e colecionadores, que já conhecem o histórico da série, seria obrigatório apresentar ao público brasileiro um pouco da relevância da obra na história da banda desenhada europeia - só para citar, a cidade de Bruxelas, Bélgica, possui pelo menos dois monumentos dedicados à série (veja aqui e aqui). Outra oportunidade de melhoria se encontra na disposição das HQs, que não seguem a ordem cronológica de publicação original, o que pode ser percebido pelo estilo do desenho, que ainda engatinha em algumas páginas. Estas pequenas falhas podem ser atribuídas aos editores originais (Casterman/Moulinsart), mas não tiram o brilho da publicação. Ainda assim, ficam registradas as dicas para o próximo volume, já previsto para o segundo semestre de 2014.

"As Diabruras de Quick e Flupke" vale o preço que custa (R$ 39,90). É leitura recomendada para adultos e crianças. Lembra àqueles e ensina a estes que a infância precisa ser vivida, e a vida não se resume a uma tela de computador.
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