terça-feira, 22 de outubro de 2013

5 projetos inacabados de Hergé

Com a notícia do novo álbum de Tintim, anunciado para 2052 - parece piada, mas não é -, tintinófilos ao redor do mundo aguardam ansiosamente por esta passagem de 40 anos, para saber qual será o título da 25ª aventura e quem será o artista responsável - se é que ele já nasceu... E como alguns defendem a ideia levada por Hergé até o leito de morte, de que ninguém além dele deveria criar histórias de Tintim, resolvi listar aqui alguns projetos inacabados do próprio criador da série, abandonados por algum motivo, mas que com seus devidos ajustes poderiam ser usados na nova fase do repórter - em que ele deverá ser apresentado aos nossos netos...


Tintin et le Thermózero: Tintim, Haddock e Girassol presenciam um acidente de carro em frente ao castelo de Moulinsart. Tintim tenta ajudar a vítima, mas o homem é levado embora antes mesmo da ambulância chegar - não sem antes esconder um objeto misterioso no casaco de Tintim. Depois de alguns dias, Tintim e Haddock descobrem que as pessoas presentes no acidente foram assaltadas. No dia seguinte, é a vez do Capitão ser raptado, e a mensagem de resgate é "Haddock pelo objeto". Sem saber do que se trata, Tintim viaja a Berlim para tentar resgatar o amigo. De volta a Moulinsart, Girassol descobre que o objeto é um explosivo que funciona no espaço sem oxigênio, porém falta um componente para ativá-lo.

Primeira página de "Tintin et le Thermozero".

O projeto surgiu no final da década de 1950, quando Hergé, sem inspiração, pediu a Michél Regnier - mais conhecido como Greg - que escrevesse um roteiro para uma nova aventura de Tintim.  Greg desenvolveu a história com base em outro projeto arquivado por Hergé, "Les Pilules". Após desenhar as oito primeiras páginas de esboços, Hergé desistiu do projeto, pois estava acostumado a ajustar seus próprios roteiros à medida que criava as páginas dos álbuns. Mais tarde, a sinopse foi reutilizada em uma aventura da série 'Joana, João e o macaco Simão' (Jo, Zette e Jocko). O roteiro original completo (em francês), está disponível aqui.

Peaux Rouge (ou La Piste Indienne): Em 1957, Hergé teve a ideia de um projeto que abordaria a questão do nativo americano com mais seriedade do que em "Tintim na América". O título seria "Peles Vermelhas" (Peaux Rouge). Na história, Tintim e Haddock visitam a Abadia de Scourmont para obter mais informações sobre reservas indígenas. Em seu retorno eles presenciam um acidente envolvendo um caminhão e um jipe conduzido por um americano. Um dos feridos seria membro de uma tribo indígena. Ele conta a Tintim sobre o roubo do "Wampum", um colar que contém um pergaminho pertencente a um religioso chamado Bison Noir. Tintim escreve uma carta ao padre Ambrose, para ajudá-lo a localizar o objeto. Em seguida, um colecionador misterioso aparece em busca do mesmo colar, que contém um contrato assinado pelo governo americano garantindo a conservação dos territórios indígenas...

Primeira página de "Peux Rouges".

Existem três páginas de anotações e duas de esboços. Um trecho do roteiro pode ser lido neste link (em francês). O padre Ambrose seria baseado no padre Gall, simpatizante dos peles-vermelha que prestou assessoria a Hergé. Os dois se conheceram em 1947, quando Hergé foi diagnosticado com depressão crônica. Mais tarde, Hergé escreveu uma carta falando sobre seu novo projeto, e recebeu uma longa lista de sugestões do religioso.

Un jour d'hiver, dans un aéroport: "Uma história sem fio condutor. Uma história anti-heróis", explicou Hergé. "Um álbum que você pode abrir em qualquer página, ler até o fim e recomeçar da primeira página". Seria um álbum experimental, reunindo um grande número de personagens encontrados nas aventuras anteriores, como o Emir Ben Kalish Ezab e seu filho Abdallah, Omar Ben Salaad, Bianca Castafiore, Serafim Lampião, General Alcazar e até Bunji Kuraki ("O Caranguejo das Tenazes de Ouro") e o marajá de Gopal ("O Vale das Cobras", uma aventura da série 'Joana, João e o macaco Simão'), entre outras figuras inesperadas. Tudo isso em torno de uma história sobre tráfico de drogas.

Esboço de Hergé sobre as tramas que se entrelaçam em 'Um dia no Aeroporto'.

Hergé teve a ideia desta aventura em 1973, durante uma escala no aeroporto Roma-Fiumicino, e começou a colocá-la no papel em 1976, após terminar "Tintim e os Tímpanos". Yves Rodier, artista canadense responsável pelo pastiche de "Tintim e a Alfa-Arte", chegou a iniciar uma adaptação desta aventura, mas devido às ações dos detentores dos direitos autorais de Hergé, desistiu antes de concluir. Você pode ver um apanhado de ideias de Hergé neste link.

Nestor et la Justice (ou L'Affaire Nestor): Nestor pede um dia de folga para ir ao encontro de sua irmã, que está doente. Ele vai e retorna à noite. Na manhã seguinte, o jornal relata o assassinato de um senhor X. Ao longo da investigação, Nestor se torna o principal suspeito. Tudo está contra ele: impressões digitais, comportamento suspeito, suas mentiras... Seria o fiel mordomo um cruel assassino? Seria, se tudo não passasse de uma trama de um dos irmãos Passarinho, seus antigos patrões. Este enredo promissor também seria uma colaboração de Greg, solicitado por Hergé em 1957, mas foi esquecido pelo criador de Tintim.


Les Spoutniks: Há duas versões deste argumento. Na primeira (1950-1951), enquanto Tintim e Haddock viajam em um navio para a Europa, eles descobrem uma mensagem de socorro em uma das pernas de um bando de patos. Trata-se de prisioneiros de um campo de concentração em Nuevo Rico. São os agentes da Bordúria que os fazem trabalhar em um projeto para converter água do mar em um combustível especial, berílio. Na segunda versão (1951), Girassol desenvolve uma substância que dissolve em água, mas descobre que ela é mortal e tenta destruí-la, antes que seja roubada. Mas este veneno está incluído em alguns medicamentos para o Terceiro Mundo. A aventura inclui uma tribo desconhecida, os Hounzas.

Página de ideias para "Les Spoutniks".

Independente de qual aventura será escolhida como título do álbum de 2052, se é que acontecerá realmente, algumas das obras acima são dignas de receber o mesmo tratamento de "Tintim e a Alfa-Arte", que mesmo sem roteiro completo, teve seus esboços publicados oficialmente. Seria uma novidade para os fãs e uma oportunidade de negócio para a Casterman e a Moulinsart, que dessa forma sim manteriam viva a memória de Hergé.
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3 comentários:

  1. primeiro é que eu acho que os fãs do TINTIN saberiam muito
    bem, diferenciar a fase com HERGÉ e os possíveis novos
    projetos sem ele, assim como foi na DISNEY com os longas
    de animação com a presença de WALT DISNEY e sem a
    presença dele. Ao distinguir bem essa realidade, não vejo
    porque o atual marido da viuva de HERGÉ, Nick Rodwell,
    vem sistematicamente impedindo artistas ( até mesmo o
    próprio BOB DE MOOR antes de falecer ) de reerguerem
    o personagem que merecia uma nova vida. Respeito o
    ponto de vista dele, sua decisão de manter a vontade
    final do criador e não dar oportunidade de se fazer uma
    nova saga de quadrinhos com TINTIN, mas vejo que isso
    é um dos maiores desperdícios e boicote à criação mais
    bem idealizadas dos comics na minha opinião. Deveria
    se manter a produção de pelo menos 1 comic book por
    ano ou de 2 em 2 anos, supervisionando e coordenando
    os artistas que se envolveriam nesses projetos.
    Tenho certeza que se o próprio HERGÉ pudesse, entenderia
    e aprovaria a nova fase porque acima de tudo TINTIN
    continuaria atuante e perpétuo no universo que
    ele sempre reinou absoluto.

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  2. Concordo. E digo mais: é um pouco contraditório permitirem um novo álbum daqui a 40 anos se durante todo este tempo respeitaram o desejo de Hergé. Isso mostra que o interesse é apenas comercial: lançar um álbum antes que a obra entre em domínio público só para ninguém lucrar sobre a marca, a não ser os proprietários e editores.

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  3. pois é, dessa forma eles quebram a tal promessa feita ao HERGÉ e é bom
    lembrar que o próprio GEORGE REMI pediu a BOB DE MOOR que ele
    completasse o ALPH-ART, que só não foi feito pela morte do BOB anos
    depois. Acho até que se HERGÉ ainda estivesse vivo, mesmo no estado
    grave de sua doença, ele não impediria uma continuidade na criação de
    novos comic books com nomes de sua confiança e gente de quem ele
    sempre se cercou, que teriam o máximo cuidado em dar qualidade ao que
    viria ser produzido, já sem a presença de seu criador. Não quero macular
    a imagem de sua ex-esposa, mas a influencia capitalista de seu novo
    marido tem sido a de quem nunca entendeu o real sentido do universo
    montado por HERGÉ e a grandeza do personagem TINTIN para o mundo
    inteiro.

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