segunda-feira, 21 de março de 2011

Performance Capture em debate

No início deste mês chegou aos cinemas norte-americanos o novo longa dos estúdios Disney em parceria com o cineasta Robert Zemeckis, Marte Precisa de Mães (Mars Needs Moms). Produzido com a tecnologia de performance capture, em que atores usam roupas especiais e têm seus movimentos capturados por computadores, o lançamento gerou grande repercussão graças ao fiasco nas bilheterias. Como o filme de Tintim é produzido com a mesma tecnologia, isso se tornou motivo de preocupação para os fãs que aguardam a estreia.


Com custo de US$ 150 milhões, o filme faturou apenas US$ 6,9 milhões em seu fim-de-semana de estreia, um grande prejuízo para a companhia do Mickey. O fato levou ao cancelamento imediato do longa "Yellow Submarine", remake da animação de 1968 estrelada pelos Beatles, que traria novamente Robert Zemeckis e a técnica de captura de performance. Mas esta foi só a última gota, pois antes deste fracasso a Disney já havia decidido fechar o estúdio ImageMovers Digital, comandado por Zemeckis, devido aos alto custos de suas produções em relação ao baixo retorno de seus filmes.

O Problema da Performance Capture

"Marte Precisa de Mães" só veio contribuir com o que muita gente já dizia há tempos: captura de performance não faz sucesso. Talvez o único problema do filme não tenha sido este, mas também sua temática pouco atrativa e a fraca campanha de marketing. Porém, o fato é que os personagens gerados por esta técnica geralmente causam rejeição no público. Quando se tenta copiar feições humanas de maneira extremamente realista, como no caso deste filme e de "O Expresso Polar" (The Polar Express, 2004), o resultado às vezes é assustador. Qual é a criança que vai querer ver isso? 

Em "Marte Precisa de Mães", Joan Cusack é a mãe de Seth Green: um dos milagres da tecnologia.

Uma teoria usada para explicar a rejeição do público a personagens extremamente realistas é hipótese do Uncanny valley (vale desconhecido, ou vale da estranheza), que seria uma reação do nosso cérebro a robôs ou personagens animados que tentam copiar os traços e movimentos humanos de maneira idêntica. Só para exemplificar: veja o caso de "A Casa Monstro" (Monster House, 2006), em que os personagens são mais estilizados, apesar de apresentarem movimentos bastante realistas. É muito menos incômodo vê-los na tela do que assistir os personagens de 'Expresso', por exemplo, que apesar de ter traços mais realistas não têm vida em seus olhos. E será que alguém vai querer ver uma filme com personagens visualmente ruins só porque a história é boa?

"O Expresso Polar" e "A Casa Monstro": técnica igual, estilos diferentes.

Outro ponto em questão, e que também tem gerado uma grande discussão em alguns sites internacionais, é: se querem fazer um filme com visual realista, por que não usar atores reais? No filme "A Lenda de Beowulf" (Beowulf, 2007), feições de atores como Anthony Hopkins e Angelina Jolie (assim como as de Tom Hanks, em "O Expresso Polar"), foram totalmente copiadas para os personagens digitais. Sendo assim, o que justifica o uso de uma técnica mais cara e até certo ponto não tão agradável que o 3D de filmes como "Toy Story", por exemplo? Parece que alguns destes filmes só foram feitos para provar até onde a tecnologia chegou.

Angelina Jolie e Anthony Hopkins: precisava mesmo do computador?

Não que eu esteja dizendo que a captura de performance é uma técnica desnecessária, pois em filmes como "Avatar" (2009) e "King Kong" (2005) seu uso foi bastante útil. Afinal, que graça teria se os Na'vi fossem atores pintados de azul, ou se o gorilão fosse um homem fantasiado? Nenhuma, claro, e por isso a captura de performance não deixa de ser bem-vinda. Até no caso de 'Beowulf', que peca pelo fato de ter mantido os personagens praticamente iguais aos atores, a tecnologia fez algo que de outra forma talvez fosse impossível: não estou falando do monstro Grendel, mas sim da transformação do velho e gordo Ray Winstone em um herói jovem e sarado...

Ray Winstone não ensina essa dieta pra ninguém...

Tintim e a Performance Capture

Steven Spielberg já justificou a escolha desta tecnologia para filmar Tintim, e em certo ponto eu concordo com ele: um filme de Tintim não poderia ser com atores reais. Também não poderia ser em 2D, pois apesar da animação tradicional ser maravilhosa, não teria o mesmo impacto rever Tintim feito à mão se já temos a série da Nelvana e os filmes antigos. Resta, então, o CGI (computação gráfica). Mas como trazer personagens famosos pelos traços simples da "linha clara" de Hergé para um mundo tridimensional, com cabelos feitos fio a fio e até poros na pele? É aí que entra a captura de performance, causando pânico em muitos tintinófilos. 

Primeira imagem do Capitão Haddock causou estranheza em muitos quando foi revelada.

Tudo bem que não é a empresa de Zemeckis que está produzindo Tintim, mas sim a Weta, de Peter Jackson, responsável pelo gorila de "King Kong", o Gollum de "O Senhor dos Aneis" e os azulões de "Avatar". Mas conforme destacado num comentário que fizeram em um desses sites internacionais, apesar de todos os personagens de Jackson terem ficado praticamente perfeitos, eles apresentam uma diferença enorme para os personagens de Tintim: não são humanos. E, como ainda não vimos nenhum personagem humano criado em captura de movimentos que realmente agradasse, nem da Weta e muito menos da ImageMovers, existe sim motivo para preocupação. 

Contudo, vale fazer algumas observações: Hergé confiava em Spielberg, que está trabalhando pela primeira vez com captura de performance e, o mais importante, também é um fã de Tintim. Sendo assim, vamos aguardar mais imagens e o tão esperado trailer do filme para tirar melhores conclusões. Enquanto isso não acontece, participe da discussão sobre o tema no Fórum Tintim por Tintim.
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2 comentários:

  1. Eu confesso que também tenho medo do resultado final, acho que poderia sim ser com atores reais ou em animação normal, msmo que computadorizada . Parece que escolheram essa técnica para chamar mais atenção, mas esquecem dos riscos! O que eu sei e que uma coisa é certa, independente do filme, Tintim continuará tendo o mesmo significado para mim e toos os seus fãs!

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  2. eu tava lendo esses dias sobre isso. em computacao grafica 3d eles estao usando logicas da robotia criar personagens 3d. o tal uncanny valley é a parte de um grafico de realismo que sempre fica lá em baixo. quanto mais proximo tenta se chegar de um ser humano real, mais irreal e estranho ele vai parecer para nós. na robotica é aplicada essa logica. Eu tenho a impressao de que no caso do tintim eles vao conseguir fazer algo que funcione. eles inclusive fizeram diversos testes antes, e a weta tem mto mais bom gosto e capacidade que o estudio do zemekis. veremos...

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