quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Tintim na América e a realidade dos EUA

Encontrar um editor para publicar Tintim na América nos Estados Unidos foi uma tarefa difícil. Em plenos anos 30, após ter saído de uma grande guerra e prestes a entrar em outra, quem seria tolo de fazer propaganda contra seu próprio país? As situações apresentadas por Hergé em seu novo álbum tinham uma certa dose de exagero, como todo cartum, mas eram um retrato da realidade norte-americana na época. O país estava mesmo dominado pelos bandidos, e tanto negros como índios eram oprimidos pelo desenvolvimento da nação do Tio Sam.


Foi só em meados dos anos 1940 que Hergé conseguiu editores interessados em publicar esta aventura nos EUA, mas para isso teria de seguir algumas imposições. Hergé não aceitou. Em 1973, porém, os americanos voltaram a mostrar interesse pela publicação da obra, convencendo o criador de Tintim a fazer pequenas modificações para que o álbum finalmente brilhasse em terras estadunidenses. O principal alvo dos americanos foi a situação dos negros. Os três únicos personagens "de cor" presentes na HQ possuíam aparência estereotipada, assim como em "Tintim no Congo". Para amenizar a situação, o cartunista redesenhou os personagens, resultando nas alterações que podem ser vistas abaixo:


A aparência do único gângster negro que aparece no segundo quadrinho da primeira página foi transformada numa versão menos caricata. O personagem deixou de ter traços tão fortes como os dos personagens de "Tintim no Congo" para ganhar um visual mais "humano", semelhante ao encontrado nos personagens negros do álbum "Perdidos no Mar", que viria alguns anos depois.


Na cena do desenvolvimento instantâneo da reserva indígena, que em 24 horas se transformou numa metrópole, um negro aparecia na portaria de um banco. O funcionário, que aparece no penúltimo quadrinho da página 29, perdeu o emprego para um homem branco, assim como os americanos queriam.


Na página 47, a versão original mostrava Tintim encontrando um bebê chorando no colo de uma mulher negra. Com as alterações no álbum, tanto a babá como o bebê tiveram a cor de pele alterada. Isso sem falar no choro da criança, que curiosamente também mudou.

Realidade x Ficção

Mesmo sofrendo essas pequenas adaptações, a publiação do álbum nos EUA, em 1973, não impediu que outros assuntos relacionados à realidade norte-americana na década de 1930 continuassem em evidência. A aventura se passa durante a Grande Depressão, período em que o país teve uma grande crise econômica, em consequência da Primeira Guerra Mundial. Mas a guerra de gangs, um dos maiores problemas na época, foi o tema principal da história. Para dar um teor mais realístico à aventura, Hergé fez algo que jamais reperitia: incluiu um personagem do mundo real, Al Capone. Quando Tintm o captura e tenta avisar um policial, acaba sendo preso no lugar do gângster. Isso acontece porque Hergé evitou mostrar o personagem sendo derrotado em definitivo, já que o verdadeiro ainda estava vivo na época da publicação.


O mesmo cuidado, porém, não foi tomado em relação ao clima de faroeste que a aventura apresenta. Hergé mostrou o Oeste americano dos anos 30 com as mesmas características do Velho Oeste presente nos filmes western. Só que o período conhecido como "Wild West" já havia passado, pois na realidade se estendera de meados do século XIX até as duas primeiras décadas do século XX. Neste caso, Hergé foi movido apenas pelo desejo de criar uma aventura semelhante às que assistia no cinema.


Outra faceta da realidade americana vista no álbum é o linchamento, morte normalmente realizada por meio de enforcamento. A prática, apoiada pela lei de Lynch, era comum nos Estados Unidos desde o final do século XVIII até meados da década de 1960. Embora fosse mais comum o linchamento de afro-americanos, o álbum apresenta o repórter belga sendo vítima de um grupo de cowboys, mas claro, vencendo pela sorte.

Observação: Este não foi o primeiro álbum do personagem a ser publicado nos Estados Unidos. Segundo o estudioso de Tintim Chris Owens, o repórter fez sua estreia na América do Norte em 1959, através da publicação de quatro volumes pela Golden Publishing: "O Cetro de Ottokar", "O Caranguejo das Tenazes de Ouro", "O Segredo do Licorne" e "O Tesouro de Rackham, o Terrível". Infelizmente, foram vendidos apenas 10 mil volumes de cada episódio, e o personagem só veio a ganhar certa popularidade no país através da série de TV da Nelvana. A propósito, este será um dos assuntos da próxima parte...
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8 comentários:

  1. Excelente, assim como a primeira parte. Fico no aguardo para a próxima. Ainda não tenho este álbum, por isso quero saber o que foi retirado na adaptação para a série.

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  2. Muito interessantes as modificações feitas no álbum para a publicação nos Estados Unidos. Realmente os negros retratados na maioria das aventuras de Tintim são bastante estereotipados. Estou lendo "Os Charutos do Faraó" e já deu para perceber claramente isso. É tão forte que até as falas deles são deficientes, como se não soubessem se expressar como os demais personagens. Mas essa já é outra história...

    Pessoalmente, eu acho que foi uma boa idéia Hergé ter incluído o ambiente de faroeste na história, mesmo essa época já tendo passado quando o álbum foi produzido. É um tema tão rico e cheio de elementos, que com certeza deve ter sido um prato cheio para as aventuras de Tintim e Milu. Mal posso esperar para ler "Tintim na América".

    Parabéns por mais esta parte, Britto!

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  3. Ficou incrível.

    Olha, eu acho que as mudanças nos traços dos personagens negros foram bem-vindas. Os desenhos muito esteriotipados, eu considero ofensivos e desnecessários, não passam nenhuma mensagem visual imediata positiva. O gângster negro ficou muito melhor na 2ª versão, e não precisou deixar de ser negro. Uma coisa é desenhar um personagem com tais traços, outra é generalizar e desenhar assim toda uma raça. Desenhos assim eram até comuns no início do século passado; mas hoje todos são banidos, como o "Little Black Sambo", da Universal Studios.

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  4. Como eu disse antes (na resposta do teu comentário, lá em casa), este está na lista de encomendas... Talvez em outubro chegue.
    Parece ser movimentado
    Abracitchos.

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  5. Eu realmente não conhecia algumas modificações feitas por Hergé em "Tintim na América" e umas das que mais me chamou a atenção foi a maneira que Hergé passou a desenhar os negros, pois na versão de 45, o negro está exactamente como os negros de "Tintim no Congo"!

    Pedro, eu queria pedir desculpa por não estar a participar no forúm mas não tenho tido muito tempo por causa das aulas.. o máximo que consigo fazer é ir uns minutos ao blog ver se há noticias, mas prometo que em breve estarei a participar no forúm que me parece ser bem interresante!

    Abraço
    Fred

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  6. Obrigado a todos pelos comentários.

    Érico, J. Júnior e Mom: Tenho certeza que vocês vão gostar do álbum. Pra quem curte humor e aventuras absurdas, esta será uma leitura fantástica!

    Blogaritmox: concordo. Só acho que não seria necessário excluir os negros nos dois últimos quadrinhos. Uma alteração no nível do primeiro já resolveria...

    Fred Não precisa esquentar com isso. Mas vou aguardar sua participação!

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  7. Muito interessante esse seu post, Hergé era muito impreciso nos primeiros álbuns do Tintim. Mas vale lembrar que o choro do bebê é uma alteração normal, pq é muito comum adaptar sons e onomatopeias em quadrinhos já que eles dependem de cada língua (por exemplo, na frança, cachorro faz ouaf ouaf)

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  8. Mto legal!! Nunca havia lido nada sobre isso! ;) Parabéns ao Blog mais uma vez!!! Continua ÓTIMO!!!! Em relação ao hergé ser acusado d racismo, eu acho totalmente o contrario! Pois Hergé colocou sim vários negros na história Tintin na America! Acho q mudanças como a do 1° quadrinho já estavam ótimas!! Não achei legal as mudanças feitas nos dois últimos quadrinhos,pois a mulher e a criança poderiam ter sido mantidas!! Fora isso, muito BOM!!!! ;)

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