quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Entrevista: Yves Rodier, herdeiro artístico de Hergé

É com grande alegria que eu trago para vocês mais uma entrevista exclusiva com Yves Rodier, o gênio que deu continuidade à obra inacabada de Hergé, trazendo para todos nós a possibilidade de ler uma versão finalizada de "Tintim e a Alfa-Arte". A publicação do pastiche foi um dos grandes destaques durante os dois anos do blog, e nesta nova fase, eu não poderia deixar de fazer referência ao seu criador, que uma vez já fez a gentileza em falar com exclusividade para o blog, como parte do especial A Evolução da Alfa-Arte.

Desta vez, Rodier responde a algumas perguntas relativas à sua adaptação do álbum, parte delas feitas pelos próprios leitores por meio de comentários e e-mails. Sem mais delongas, vamos logo saber o que Yves Rodier tem a nos dizer:

Como você acha que Hergé conduziria o final de Tintim e a Alfa-Arte? Tintim morreria, como alguns acreditam?
Sim, Hergé estava tentando fazer Tintim morrer, porque ele sabia que a Alfa-Arte era para ser a última história que ele faria, mas ele não teria feito isso. Os heróis não morrem. Acho que esta é uma das razões pelas quais Hergé nunca terminou a história, ele não via como contornar a morte de Tintim. Era ideia dele matá-lo, sabendo que não o poderia fazer, que havia um bloqueio para inventar mais.
Para você, Rastapopoulos seria mesmo a verdadeira identidade de Endaddine Akass?
Sim, para Hergé, Endaddine Akass era mesmo Rastapopoulos, que havia mudado de aparência graças à cirurgia plástica. Esta hipótese me foi confirmada por Bob de Moor quando eu o conheci em 1991, ano em que tinha terminado o álbum. Acho que falam sobre isso na nova versão da "Alfa-Arte", publicada como álbum nº 24 da coleção oficial de Tintim na Casterman.
No final de sua versão de Tintim e a Alfa-Arte, Rastapopoulos morre. Mas esta era a ideia original de Hergé? Você acha que o autor queria colocar fim ao seu maior vilão?
Não, esta não foi uma idéia de Hergé, mas minha. No entanto, acho que ele poderia ter feito. Como ele queria por um fim à série, uma boa maneira para marcar o desfecho seria matar o vilão.
Muitos leitores questionaram o motivo de Ramo Nash ter saído impune no final da aventura. Você acha que inocentar o personagem foi a decisão mais justa? Ou hoje acredita que ele merecia um final digno de um vilão?
Eu não acho que Ramo Nash seja um vilão. Ele é um artista dotado de um grande talento para reproduzir os estilos de diversos artistas, talvez um pouco ingênuo, estando envolvido nesta história por causa dos elogios e incentivo de Rastapopoulos. Quando ele viu que seu mentor  na realidade era um bandido pronto para matar, ele tentou salvar o herói, e foi redimido... em todo caso, aos meus olhos. Na vida real, ele provavelmente teria sido acusado de criação e comércio de falsificações... Mas na verdade eu não sei.
Muito se tem questionado sobre a sexualidade de Tintim. Em Tintim e a Alfa-Arte, surge uma mulher que ganha um certo destaque, diferente do que acontecia nos álbuns anteriores. Você acha que Hergé tinha outros planos para Martine Vandezande, como um possível romance com Tintim?
Eu não faço idéia se Hergé queria desenvolver um romance entre Tintin e Martine. Sem dúvida ele queria a inserção de uma personagem feminina da série, em resposta às várias críticas feitas a ele na época devido à misoginia da série, e para dar um tom mais "moderno". Mas achei a possibilidade interessante. Não levei a história muito longe para não distorcer a série, por isso eu mostrei apenas o esboço de uma relação entre Tintin e Martine.
Como surgiram as ideias para compor o fim de Tintim e a Alfa-Arte? Você recorreu a alguma ajuda para obter inspiração ou as ideias foram surgindo?
Eu apenas tentei encontrar um final plausível para a história que Hergé inventara, resolvendo cada história relacionada com os diferentes personagens. Com mais de vinte anos de aprendizagem, eu não acho que fui muito bem-sucedido.
Existe alguma coisa que você não gosta? Acha que fugiu do estilo de Hergé em algum momento? Se fosse fazer hoje, o que mudaria?
Há muitas coisas que eu não gosto. Se fizesse tudo de novo hoje, começaria por re-escrever a história de Hergé. Eu cometi um erro amador, de um fã amador muito respeitoso que eu era: eu mantive cada palavra que Hergé havia escrito. No entanto, quando vemos como Hergé trabalhava, ele sempre revisava seu trabalho, eliminando qualquer coisa que não era necessária, reescrevendo textos para torná-los mais claros e concisos quanto possível, combinando todas as ações para que a história fosse mais fluida, etc... A obra de Hergé, como ele deixou nesta história, era um primeiro rascunho que PRECISAVA ser re-trabalhado. Eu não fiz isso, e este foi meu maior erro. Mas talvez eu não tivesse o talento para fazer mais, naquela época. Creio  que hoje eu poderia fazer muito melhor.
Percebi algumas homenagens a Hergé no pastiche, além de uma referência ao jornalista Jean-Loup de la Bacheliere. Você usou as páginas de Tintim e a Alfa-Arte para fazer outras homenagens e referências?
Er... Já não sei mais. Acho que a maioria das referências às aventuras anteriores já havia sido feita por Hergé na primeira parte da história que ele havia escrito.
Na sua opinião, novas aventuras de Tintim deveriam ser produzidas, como álbuns escritos e desenhados por outras pessoas? O que espera da adaptação cinematográfica de Steven Spielberg e Peter Jackson?
Não, acho que a série "As Aventuras de Tintim" desenhada por Hergé deve permanecer como está. Tudo o que seria adicionados seriam... adições! Além disso, Tintim sempre foi um testemunho do seu tempo... Fazê-lo andar em calças de golf no mundo moderno seria ridículo. Então mudariam o personagem, o que poderia distorcê-lo completamente. Não, eu acho que a era do Tintin é outra. É um grande personagem nostálgico, retrô, mas que não pode viver nos dias de hoje. No entanto, estou ansioso para ver a versão de Spielberg no cinema! Aguardo este filme desde os anos 80! Só espero que ele seja tão bom quanto "O Mistério do Tosão de Ouro", o filme "live-action" que foi filmado em 1960, e que eu adoro!...
Em nossa primeira entrevista, você disse que lançaria um novo personagem em junho de 2010. E então, o lançamento já aconteceu? O que poderia nos dizer sobre ele?
O primeiro álbum de "Aventures d'El Spectro" será lançado no festival de Angoulême, em janeiro de 2011! A editora Lombard decidiu lançar o pacote! Será um grande lançamento durante o maior festival de quadrinhos da Europa francófona!
Yves Rodier disponibilizou para o blog duas imagens do seu álbum inédito, o primeiro da série estrelada pelo personagem "El Spectro". Veja abaixo a capa e a primeira página do álbum, intitulado "Les Mutants de la Lune Rouge", e em seguida, a sinopse da aventura em quadrinhos.

Copyright Rodier-Antoine-Le Lombard
Sinopse: Nosso herói Spectro parte para uma viagem de férias com sua noiva Marina Topalov, campeã mundial de xadrez, na Espanha. Mas as férias se transformam num pesadelo: Marina é sequestrada por membros de uma seita chamada "La Lune Rouge", que querem fazer dela sua rainha. Mas Spectro ainda não deu sua última palavra!
Copyright Rodier-Antoine-Le Lombard
Por enquanto Rodier está trabalhando apenas na série "El Spectro", criação sua, que narra as aventuras de um lutador de luta livre que nas horas vagas combate vilões e salva mocinhas. O cartunista confirmou ao Tintim por Tintim que já está preparando o segundo álbum do personagem, chamado "Trans-Amazonie". Nesta aventura, Spectro participará de uma grande corrida de carros que passará por vários países da América do Sul. Além desta, já estão no papel mais de uma dúzia de sinopses de histórias com o personagem.

Conforme o próprio cartunista confirmou, "El Espectro" será lançado em janeiro de 2011, e o preço deve ficar em torno dos 10 euros. Para quem curte o trabalho de Rodier, vale a pena contar: ele está à procura de uma editora que tenha interesse em publicar seu trabalho no Brasil! Vamos torcer!
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5 comentários:

  1. Excelente entrevista!
    Achei muito interessante a resposta dele acerca de possíveis mudanças, caso a continuação de "Tintim e a Alfa-Arte" fosse feita por ele nos dias atuais.

    Acredito que a maioria absoluta dos admiradores da obra de Hergé concorda com ele no que diz respeito a deixar a série de aventuras como está: finalizada e consagrada! Mas acho que não há motivos para grandes preocupações no que se refere a isso, visto que a Moulinsart implica até com publicações simples, o que dirá de "novos álbuns" de Tintim.

    "Aventures d'El Spectro" parece ser muito bom! Tomara que em breve possamos conferir uma boa versão brasileira desse álbum.

    Parabéns, Britto.

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  2. Concordo que a série de álbuns de quadrinhos de Tintim deva continuar intacta, mas não sei se no futuro será assim. Depois que a repercussão dos três filmes acabar, como a marca se manterá viva? Creio que derivados possam surgir, talvez em forma de séries de TV, animadas ou não... Nesse caso, seria necessário (aliás, inevitável) criar novas histórias.

    Também estou torcendo por isso, J.!

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  3. As histórias não podem ser modificados, devem ser exatamente como Hergé escreveu, e ficaria chato se uma mulher entrasse na história.

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  4. eu nem sei o q comentar! só posso dar os parabéns, ao nosso querido Rodier e a vc Britto, por esse blog tão maravilhoso!!!! Continua assim!!!! ;)

    obs: Acho q as histórias deveriam continuar, Tintin envolvido com o mundo um pouco mais moderno, mas sem perder o jeito fofo e carismático dele! VIDA LONGA AO RODIER!! VIDA LONGA AS OBRAS DE HERGÉ!! VIDA LONGA A TINTIM!!!!!!!!!!!!!!!!!! :D
    Obs2: Não gostei muito de Martine! achei ela um tanto fresquinha! Gostaria q fosse uma garota mais forte, com mais atitude pra reprentar melhor nós TINTINÓFILAS ASSUMIDAS! ;)

    Abraços de Isabelle.

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  5. mas ele não tem os mesmos traços de hergé mas gostei dele ter finalizado a obra de hergé fiquei feliz em ver a ultima obra dele acaba :)

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