quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A Evolução da Alfa-Arte III: Entrevista Exclusiva com Yves Rodier


Como parte do especial A Evolução da Alfa-Arte, confira agora uma entrevista exclusiva com o desenhista canadense Yves Rodier. Nascido em Quebec, Canadá, em 1967, Rodier atualmente vive na França com sua esposa.

Nesta conversa, ele nos conta como começou a criar a mais famosa versão "completa" da Alfa-Arte, além dos desafios que enfrentou e os frutos colhidos através de seu excelente trabalho. O artista nos fala também sobre seu trabalho atual com quadrinhos (ou bande desinée), e nos dá uma prévia de sua nova obra, a ser lançada no ano que vem.

No final da entrevista, o responsável pelo pastiche Tintim e a Alfa-Arte, publicado aqui semanalmente, deixou um recado para os tintinófilos brasileiros. Confira agora este bate-papo:

- Quando você começou a gostar de Tintim?
Desde a minha infância, eu sempre li Tintim! Mesmo quando não sabia ler, pedia a minha mãe e aos meus irmãos mais velhos para ler os álbuns! Estes eram os álbuns dos meus irmãos.
- E você já desenhava nessa época?
Comecei a desenhar com a idade de dois anos e meio! Eu tentava copiar os desenhos do meu irmão Michel.
- Como reagiu à notícia da morte de Hergé, em março de 1983? Já sabia algo sobre "Tintim e a Alfa-Arte"?
Não me lembro de ter escutado tanto sobre morte de Hergé quando esta aconteceu... Eu tinha 15 anos na época e estava em um período bastante musical, tinha uma banda de rock e tocávamos músicas dos Beatles. Eu soube da existência da Alfa-Arte pouco tempo antes do lançamento do livro reunindo os esboços de Hergé, em outubro ou novembro de 1986.
- Você chegou a conhecer outras versões "completas" de Tintim e a Alfa-Arte? O que achou delas?
Sim, eu comprei a versão "Ramo Nash" em 1989! Além disso, quando soube da existência deste álbum, eu pensei: "Bem, eu não vou precisar terminar o meu, alguém já fez isso..." Mas quando vi os desenhos deste álbum, fiquei um pouco decepcionado, e voltei ao trabalho, sabendo que a minha versão seria melhor.
- Por que decidiu fazer sua própria versão do álbum? Enfrentou algum desafio, achava que realmente conseguiria "completá-lo"?
Quando eu ouvi dizer que o álbum "Tintim e a Alfa-Arte" seria publicado em 1986, sabendo que Hergé estava morto, pensei que seria completado por Bob de Moor, o assistente nº 1 de Hergé. Mas quando soube que esta seria uma coleção de desenhos de Hergé, além da transcrição de seu roteiro, eu disse: "Vamos lá! Eu mesmo vou terminá-lo! Alguns meses de trabalho e esta será uma boa escola para mim, para aprender o ofício de autor de histórias em quadrinhos." Eu não sabia o tanto de trabalho que isso representava, e o desafio que tinha colocado em meus ombros! Levei 5 anos para completar o trabalho!... Mas foi uma grande escola!
- Você ainda era muito jovem quando começou sua adaptação. Lembra exatamente quando começou e quando finalizou o pastiche?
Sim, eu tinha 19 anos quando comecei, em dezembro de 86 ou janeiro de 87, não me lembro muito bem. Terminei no final de maio de 91.
- Acha que conseguiu ser fiel ao estilo de Hergé? Baseou-se apenas nos esboços originais (publicados pela Casterman em 1986) ou utilizou outros álbuns de Hergé como base para os desenhos?
Eu tentei permanecer bem fiel ao estilo de Hergé, mas o estilo variou muito durante os 50 anos que Hergé deu vida a Tintin. Então eu peguei como modelo os últimos 5 ou 6 álbuns, onde o estilo é mais ou menos consistente (de "O Caso Girassol" a "Tintim e os Tímpanos", incluindo também a nova versão de "A Ilha Negra"), pois além de ter de aprender a desenhar exatamente como Hergé, eu também tinha que tentar compreender como Hergé contava uma história, para escrever o final do álbum em grande estilo!
- Houve uma tentativa de publicar o álbum como oficial, mas a Sociedade Moulinsart foi contra. O que realmente aconteceu?
Quando terminei o álbum, em 1991, primeiro apresentei para Bob de Moor [foto], que estava de passagem em Montreal para um Festival de HQ. Ele ficou muito impressionado, principalmente pela minha persistência, e apoiou meu pedido à Fundação Hergé (Moulinsart ainda não existia), para redesenhar o álbum, mais profissionalmente, com o Bob, mas sempre como "Homenagem a Hergé". Quando a Fundação recusou, porque poderia haver, segundo eles, uma confusão nas mentes dos leitores que poderiam crer que a série Tintim continuaria com novos desenhistas e escritores se o resultado parecesse "profissional" demais, então me propus a publicar minha versão do jeito que estava. Eles também recusaram, dizendo que Hergé foi claro em suas exigências, de que ninguém deveria continuar a dar vida a Tintim depois de sua morte, de maneira alguma. Eu respeito a decisão deles, e creio que me respeitam agora, porque sempre fui honesto com eles.
- Falando nisso, você está acompanhando o caso Moulinsart x Bob Garcia? Na sua opinião, quem está com a razão?
Não, não estou tão familiarizado com este caso. Mas estou contente se isso significar que os fãs de Tintim poderão ganhar mais liberdade para criar homenagens e obras de arte ou literatura em torno de seu herói, e se isso também significar que a Moulinsart terá que parar de monopolizar o personagem, e deixar que outras pessoas criem trabalhos sobre Tintim, sem lhes cobrar taxas absurdas para utilizar imagens com direitos autorais. Tintim é um herói de quadrinhos, não uma marca, ou uma máquina de dinheiro, como Moulinsart o tem feito ser.
- Sua versão da Alfa-Arte lhe abriu muitas portas, como a oportunidade de conhecer nomes como Bob de Moor e Greg. Dentre as realizações alcançadas em razão de sua obra, qual foi a mais significativa para você?
Eu diria que ver meu trabalho apreciado e reconhecido por pessoas tão importantes para mim como Bob de Moor e Greg me deu a coragem de seguir este caminho e tentar me tornar um desenhista de HQs de verdade, legítimo, e não apenas um "pasticheiro de Tintim". O que eu creio agora estar a ponto de se cumprir, com a minha série "Simon Nian", publicado pela Glénat, e minha futura série "El Spectro", o justiceiro lutador mexicano, a ser publicada pelas Editions du Lombard, em Junho de 2010!
- Hoje você trabalha com histórias em quadrinhos. Acredita que alcançaria o sucesso se a Alfa-Arte não tivesse passado pelo seu caminho?
Talvez, mas uma coisa é certa, ter concluído o Alfa-Arte atraiu muita atenção para mim, e me abriu muitas portas. Ainda hoje, quando dou autógrafos em Festivais de HQs, eu diria que 1/4 das dedicatórias que faço são das coisas de Tintim que eu desenhei há quase 20 anos!
- Por fim, quero lhe agradecer pela gentileza de conceder parte de seu tempo para esta entrevista. Agora, por favor, deixe uma mensagem para os tintinófilos brasileiros...
Estou contente em saber que Tintim, um herói com bons valores tradicionais, tais como a justiça, a honestidade, a bondade, sempre foi tão bem sucedido, em todo o Mundo, na América do Sul, e em particular no Brasil! Obrigado mantê-lo em seu coração! Viva Tintim!!! Viva Hergé!!!
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5 comentários:

  1. Gostei da entrevista. Parabéns ao blog!
    Obrigado por este especial, que esta cada vez melhor!

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  2. Cara, o Rodier foi muito legal em falar com os tintinófilos brasileiros. Muito obrigado, e continue assim, que o blog vai longe...

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  3. Obrigado pelos comentários e elogios, pessoal. E desculpem por não responder muito...

    Sim, Luis, provavelmente neste fim de semana entra mais uma parte com muitas imagens legais.
    Abraços!

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  4. Muito bacana a entrevista, Britto! Meus parabéns!

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