domingo, 24 de agosto de 2008

Tintim "pervertido"

O polêmico livro espanhol O Lótus Rosa, que revoltou os herdeiros de Hergé, retrata o personagem Tintin como um paparazzo desiludido que finalmente perde a virgindade

O mundo de Tintin veio abaixo. Milu, seu valente fox terrier branco, está morto. O Capitão Haddock entregou-se ao jogo e à bebida. Diante do futuro desolador, sem as aventuras de outrora, Tintin se transforma em fotógrafo de celebridades e começa a se relacionar com mulheres. Este é o futuro do personagem belga imaginado pelo autor espanhol Antonio Altarriba. A história é parte integrante do livro O Lótus Rosa, publicado em dezembro passado para homenagear o centenário de nascimento de George Remis, nome verdadeiro de Hergé (1907-1983), criador do personagem. Mas o realismo quase apocalíptico de Altarriba desagradou a Sociedade Moulinsart, que reúne os herdeiros de Hergé. O livro teria "pervertido a essência do personagem", segundo os detentores dos direitos autorais da série, e virou alvo de uma disputa judicial.

Em fevereiro, a Sociedade Moulinsart pediu que os distribuidores retirassem das prateleiras a primeira edição de O Lótus Rosa, de 1,5 mil exemplares. Os advogados da editora Edicions de Ponent conseguiram impedir o recolhimento dos livros. A batalha judicial terminou num acordo. A Moulinsart admitiu que não havia delito na obra, e a editora comprometeu-se a não relançar o livro, que ficará nas prateleiras européias até o esgotamento da única edição. A Companhia das Letras, que também edita as aventuras de Tintin, não publicou O Lótus Rosa no Brasil. Nem poderá fazê-lo. (...)

Em entrevista a ÉPOCA, Antonio Altarriba, escritor e professor de literatura francesa da Universidade do País Basco, comentou a reação dos herdeiros de Hergé e descreveu o futuro cruel que reservou para o novo Tintin.

ÉPOCA - Como você retratou o futuro de Tintin?
Antonio Altarriba - A história se passa em 1995. Tintin saiu do mundo intenso e vibrante da aventura e caiu num estado de desânimo e ceticismo. Hergé está morto e Tintin perde o dom da eterna juventude. Ele envelhece. Eu apresento um herói de 30 anos que aterrissa num mundo que não obedece a valores. Esse Tintin está desenganado, vai ao psiquiatra porque padece da síndrome do protagonismo perdido. Seu mundo veio abaixo. Capitão Haddock virou alcoólatra. Professor Girassol está internado num sanatório psiquiátrico. E o pior de tudo: Milu, seu companheiro de aventuras, está morto.

ÉPOCA - Por que os herdeiros de Hergé disseram que você transformou Tintin num pervertido?
Altarriba
- Eles exageraram. Eu apenas o coloquei em outro contexto. A parte erótica, que criou toda a polêmica, aparece em no máximo vinte ou trinta linhas. A aventura acontece em um cruzeiro entre Nova York e Londres. O navio está cheio de artistas de Hollywood como Matt Dillon, Arnold Schwarzenegger e Jack Nicholson. Entre as celebridades está a atriz Catherine Deneuve, a mulher com quem Tintin se inicia no sexo, dentro do barco. São pequenos parágrafos dentro de uma história de vinte e poucas páginas, com ilustrações que não mostram ninguém sem roupa. O jornal inglês The Guardian disse que fiz uma versão pornográfica do Tintin, e isso está errado.


ÉPOCA - Você quis colocar os valores idealistas de Tintin à prova?
Altarriba
- Eu quis explorar duas questões intrigantes da série: a eterna juventude e a sexualidade. A única figura feminina da série é a cantora Castafiore, que não representa a mulher de maneira completa. Ou tratamos desses temas de maneira teórica, ou de maneira criativa, como fiz. O personagem só atinge uma certa profundidade quando entra em conflito. É uma ficção com realismo. Ele também se vê obrigado a retornar ao trabalho de repórter. Mas só consegue trabalho como paparazzo porque essa é a nova realidade do mercado.


ÉPOCA - Você transformou o Capitão Haddock num louco por jogo que não desgruda de uma garrafa de bebida?
Altarriba -
Essa é minha hipótese. O Capitão Haddock sempre teve uma inclinação para o álcool. Ele adora uísque, e isso já está na obra de Hergé. A única coisa que fiz foi exagerar essa tendência. Quando ele se afasta das aventuras, passa a gastar tudo em jogo e bebida. Tem de hipotecar o castelo de Moulinsart e todo seu patrimônio. Tintin ainda recebe algumas notícias de Haddock. Ele termina a história vagando bêbado pelas ruas de Bruxelas.

ÉPOCA - As disputas judiciais trouxeram dor de cabeça?
Altarriba
- Eu comecei a ter problemas pouco tempo depois do lançamento da obra, em dezembro do ano passado. A Sociedade Moulinsart agiu de maneira bastante irregular. Eles não falaram comigo nem com meu editor. Fizeram pressão sobre os distribuidores para que retirassem os livros das prateleiras. A FNAC começou a retirar os livros, mas a reação dos advogados da editora foi rápida. Eles não tinham nenhum amparo judicial para isso. Aí começaram problemas maiores. Minha editora é pequena, e perderia muito dinheiro batalhando contra a Moulinsart. Fizemos um acordo. O livro será vendido até que se esgote a primeira edição, de 1.500 exemplares, e não haverá reedição.

ÉPOCA - Outros escritores e desenhistas também imaginaram um futuro obscuro para personagens como Batman e Super-Homem. O herói deve mudar com o tempo?
Altarriba
- Esse é um exercício criativo não só do mundo dos quadrinhos. Escritores, pintores, cineastas trocam referências constantemente e as atualizam. Existe uma cumplicidade cultural entre todos. Eu apenas interpretei e reinterpretei Tintin. Isso a Sociedade Moulinsart não pode controlar. Eles não podem dizer como devemos ver Tintin. Isso é excesso de zelo de gente que quer controlar o personagem, por razões econômicas e ideológicas. Eles pensam que Tintin pode obedecer a um esquema fixo, e já interferiram no trabalho de muitos outros autores.


ÉPOCA - O Lótus Rosa pode se transformar num cult depois de toda a polêmica?
Altarriba
- Não sei se o livro virará obra de culto, mas certamente será muito procurado. É a lei de oferta e demanda. O livro está condenado a 1.500 exemplares e não será reeditado. Vai virar coisa de colecionador.

Matéria de Andres Vera para a revista ÉPOCA, em 21/08/08
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3 comentários:

  1. Não vejo problema algum nessa obra. Acho até ignorancia da Moulinsart proibi-la.
    É uma releitura do personagem, não é por causa disso que os "tintinófilos" vão deixar de amá-lo!

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  2. Só queria entender: os direitos autorais de Tintim já cessaram? Qualquer um pode usar o personagem como quiser?

    Porque copyrights deixam de ter valor em 70 anos, mesmo.

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  3. Cara, se eu fosse falar tudo o q eu acho disso, eu não acabaria com isso hj! Só digo que na minha opinião é uma fronta e para mim, a Moulinsart não deveria ter permitido a volta desse livro às prateleiras! Se o Tintim fosse uma criação minha, nunca que eu deixaria uma COISA dessas proporções acontecerem! Na minha opinião isso manchou a imagem do meu herói Tintim, e não acho legal que as pessoas tenham essa imagem dele! Se isso se propagar mais, talvez as futuras gerações não tenham um olhar carinhoso sobre Tintim, que é um personagem inocente, mas como algo impróprio e temo pelas crianças das próximas gerações que por isso, talvez possam não conhecer esse ILUSTRE personagem, que para mim será sempre um herói! Nunca porei esse livro em minhas mãos e se dependesse de mim, Tintim não precisaria passar por essa situação! E me desculpem, mas para mim isso não é uma homenagem! E tenho certeza de que Hergé pensaria da mesma maneira! Sinto muito! Ah, e Paulo, vc tem toda a razão! As pessoas perderam totalmente os valores que outrora, pareciam possuir! Acho isso totalmente errado! Passando uma imagem totalmente negativa de um personagem AMADO e QUERIDO por muitos! Decepcionante!

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