domingo, 13 de abril de 2014

"Le Thermozéro": Entrevista com colaborador de Hergé sobre o álbum inédito

Em 2007, durante as celebrações do centenário de Hergé, Jacques Martin, antigo amigo e colaborador do pai de Tintim, deu uma entrevista à revista Lire. Na conversa com Christophe Fumeux, Martin revelou ao grande público a história por trás de um álbum inacabado de Hergé, "Tintin et le Thermozéro", que teria cerca de cinquenta páginas de esboços e um roteiro completo.


CF: Sr. Martin, poderia nos dar alguns detalhes sobre esta revelação e por que nunca falou sobre isso antes?

JM: Porque você nunca me perguntou! (risos) Eu já luto para me fazer entender quando explico que os colaboradores de Hergé foram muito importantes no processo de criação dos álbuns de Tintim... Imagine a dificuldade para falar de um álbum que ninguém conhecia (risos)! Originalmente, Greg propôs a Hergé um roteiro, chamado mais tarde de 'Thermozéro', e sobre o qual eu trabalhei por algumas semanas. Hergé estava sem inspiração naquela época [por volta de 1958-1959], e Greg conseguiu convencê-lo a propor um roteiro de Tintim "sob medida". Eu não me lembro exatamente o valor do contrato, mas, na época, parecia muito caro... realmente exorbitante. Mas ao ler, Hergé achou que esse roteiro era muito mecânico (...).

Sobre o enredo e o estilo de narrativa adotado por Greg, Jacques Martin explicou: "Basicamente, o roteiro girava em torno de uma trama cômica com muitas variações: os bandidos se encontram em algum lugar em uma estrada da Normandia. Eles descobrem por acaso uma garrafa térmica de café - obviamente abandonada - onde há uma bomba atômica em miniatura. Um acidente de carro é a oportunidade para que Tintim e Haddock entrem em seu caminho... Obviamente, o uso inadequado desta garrafa dá origem a mal-entendidos, a eventos cômicos e à repetição um pouco similar à cena do esparadrapo no 'Caso Girassol'..."


Martin conta que "Hergé achou muito repetitivo e não estava realmente convencido. Então, ele pediu para eu trabalhar sobre o roteiro". O trabalho de revisão foi realizado junto com outros dois colaboradores, Bob de Moor e Roger Leloup. "Evoluí consideravelmente, sobre uma pilha de páginas e esboços", revela. Mas segundo Martin, Hergé deixou o projeto para trás para embarcar em outra aventura. Ao contrário do que alguns sites já declararam, que o próximo álbum seria "As Jóias da Castafiore", Martin foi categórico em afirmar que o próximo trabalho do autor seria "Tintim no Tibete".

CF: Houve um debate entre os colaboradores do estúdio? Alguns argumentam que Bob de Moor e você continuariam este projeto enquanto Baudoin Van den Branden e Hergé eram contra...

JM: Bandoin Van den Branden não estava envolvido neste tipo de caso, não era sua função, ele era o secretário de Hergé, encarregado de sua correspondência e seus negócios correntes, e nunca interferiu na criação de histórias (...) Mas no fundo, me incomodou um pouco o fato de Hergé ter abandonado esta história, mesmo depois de eu ter evoluído consideravelmente a partir do projeto de Greg. Mas, infelizmente, não houve debate real sobre o assunto. Hergé me pediu alguns dias para refletir, então ele veio em meu escritório e disse: 'ok, eu desisto, isso não é bom, é Charlie Chaplin, não Tintim...!' E nunca mais tocou no assunto.


CF: E para você, era bom ou não?

JM: Não era ruim, havia coisas boas, ele tinha material para fazer um bom álbum... Mas ao meu ver, seria um álbum muito próximo de 'O Caso Girassol', com uma atmosfera de Guerra Fria, de espionagem e esta bomba que ameaça explodir a qualquer momento -sem jamais explodir, é claro - mas que servia de alívio cômico. Nós poderíamos ter feito interessante deste roteiro... Havia partes boas. Você vai ver um dia, se decidirem editá-lo.

CF: É verdade o que Jérome Dupuis afirmou à revista Lire, que você posteriormente trabalhou na adaptação desta história de Tintim para um longa-metragem que se passaria no Canadá?

JM: Ah, não! Isso é completamente falso! ... Não, não, esse projeto foi definitivamente abandonado em 1960. Além disso, não acredito que houve algum projeto de filme com este roteiro...

:: Sobre Jacques Martin:

Nascido na França em 1921, Martin criou sua primeira história em quadrinhos (bande dessinée) em 1942. No fim da Segunda Guerra Mundial, em 1946, ele viajou para a Bélgica em busca de um editor para suas criações. Foi lá que conheceu Hergé, com quem passou a colaborar nos álbuns de Tintim, como "Tintim no Tibete" e "Perdidos no Mar". Em 1948 criou "Alix", sua principal obra, que fez sua estreia na revista Tintin. Jacques Martin faleceu em 2010, deixando cerca de 120 álbuns publicados.

sábado, 5 de abril de 2014

Aviso importante aos fãs do TPT no Facebook

O Facebook "é gratuito e sempre será". Pelo menos é nisso que a rede de Mark Zuckerberg quer que você acredite. Em certo sentido não deixa de ser verdade, pois o usuário não precisa pagar para tirar proveito dos benefícios da rede social. Pelo menos o usuário comum, que normalmente mantém um perfil para compartilhar, curtir, comentar e bater papo. Para os administradores de páginas, como a do Tintim por Tintim, o cerco vem se fechando. Não que estejam cobrando algum valor de nós, pelo contrário, ainda é possível manter uma página gratuitamente. Mas existe uma pressão velada para que os donos de páginas paguem para ter suas publicações divulgadas para os próprios fãs e mais algumas pessoas.

A cada dia que passa o Facebook vem diminuindo o alcance que as publicações das páginas têm entre seus seguidores. Com isso, você deixa de receber todas as postagens publicadas por um página que curtiu para dar lugar a coisas "do seu interesse" em seu feed de notícias. E entre estas coisas estão vários posts patrocinados, que não necessariamente são aquilo que você quer ver. Para os administradores de páginas, resta se contentar com um percentual mínimo de alcance do seu público (que para o TPT às vezes significa ter menos de 300 pessoas - dentre mais de 2.000 - visualizando uma postagem) ou pagar para "impulsionar" a publicação, como é sugerido por um conveniente botão embaixo de cada post.

Como receber todas as atualizações do Tintim por Tintim no Facebook


O Tintim por Tintim não tem fins lucrativos, por isso, promover a página no Facebook não está na minha lista de prioridades. Mas não queremos que as atualizações da página (e do blog) deixem de ser vistas por cada um de vocês, não é mesmo? Então fica a dica para quem não quiser deixar nada escapar: acesse a página, clique no botão "Curtiu" e em seguida na opção "Obter notificações". A partir daí, todo conteúdo publicado pela página (l00% livre de spams) aparecerá em sua página principal do Facebook.



Se você não tem Facebook, ainda pode seguir o TPT no Twitter (@Britto_TPT) ou, se preferir, receber todas as atualizações do blog direto em seu e-mail, fazendo um rápido cadastro através barra à direita. 

quinta-feira, 27 de março de 2014

Moulinsart censura Tumblr com imagens de Tintim

A Moulinsart S.A. agiu mais uma vez. De acordo com artigo do site Libération, o Le Petit XXIe, Tumblr administrado por dois jornalistas desde fevereiro, teve suas imagens bloqueadas a pedido dos detentores dos direitos autorais de Tintim e Hergé. Um dos jornalistas foi o próprio autor do artigo, Quentin Girard, que falou sobre a ação e as explicações dadas pela empresa.

Com o título fazendo referência ao jornalzinho que publicou originalmente as tirinhas de Tintim, Le Petit Vingtième, o espaço utilizava quadrinhos dos álbuns de Hergé para ilustrar notícias reais. Só para citar um exemplo, no caso do Boeing da Malaysa Airlines, que desapareceu com 239 pessoas a bordo no último dia 8 de março, foi utilizada uma imagem de "Voo 714 para Sydney", retratando a perda de contato entre a torre de controle e o avião de Lazlo Carreidas.

A ideia foi muito bem-recebida pela mídia e pelos fãs, mas não pela Moulinsart. "Sabíamos que eles não são conhecidos por sua flexibilidade", afirma Girard, que se refere a Nick Rodwell como um "lobo branco pronto para fazer qualquer coisa para preservar a galinha dos ovos de ouro", citando como exemplo a notícia de um possível novo álbum só para evitar que o repórter caia em domínio público. "Mas pensamos que poderíamos evitar o jugo das Éditions Moulinsart", confessa, explicando que o Le Petit XXIe destina-se apenas a prestar uma homenagem a Hergé e sua obra. "Ele nunca revela um álbum inteiro, apenas um quadrinho em cada caso, nos termos da lei de citação se aplica a qualquer obra". 


Procurando o departamento jurídico da Moulinsart, os jornalistas tiveram a seguinte resposta: "A lei considera um quadrinho dos álbuns das Aventuras de Tintim como uma obra em si". Ou seja: cada quadrinho é uma obra em si, de modo que seria impossível citar Tintim por meio das imagens dos álbuns, apenas mencionando um trecho do texto. A empresa frisa mais uma vez que o objetivo da ação é assegurar "o respeito e a proteção ao trabalho de Hergé". O extenso artigo faz ainda alguns questionamentos sobre alguns posicionamentos contraditórios e ações anteriores da Moulinsart, e continua gerando comentários. Para ler tudo (em francês), clique aqui

No Twitter, os criadores do Le Petit XXIe explicaram que seu trabalho não constitui plágio, pois não visa o lucro, e afirmam que continuarão postando no microblog, enquanto não encontram outra plataforma de blog - ou enquanto a Moulinsart permitir...

quarta-feira, 26 de março de 2014

Teria Hergé se inspirado em Georges Méliès?

Assistindo ao filme "A Invenção de Hugo Cabret" (recomendadíssimo pra quem curte cinema), notei um personagem de Georges Méliès que não conhecia: Le Diable, do filme "Le Diable au Convent" (1899). Chamou atenção a semelhança física com um personagem de Hergé, o Marquês Di Gorgonzola, alter-ego do vilão Rastapopoulos no álbum "Perdidos no Mar". Teria Hergé se inspirado no filme de Méliès para conceber o disfarce do criminoso milionário dono do Sheherazade? Não sabemos - mas se alguém tiver informações,não hesite em compartilhar!



A propósito: coincidentemente, Georges Méliès é interpretado no filme de Martin Scorsese por ninguém menos que Ben Kingsley, um dos favoritos do TPT para o papel de Rastapopoulos em uma das futuras aventuras cinematográficas de Tintim... Pelo menos como Di Gorgonzola ele convenceria, não?!

:: Sobre o filme

"A Invenção de Hugo Cabret", lançado em 2011, é o primeiro filme 3D de Martin Scorsese (que dá uma de Hergé e Hitchcock e faz uma aparição rápida). Com Ben Kingsley, Asa Butterfield, Sacha Baron Cohen e um ótimo elenco, o longa é uma obra-prima cinematográfica sobre um garoto órfão que está decidido a consertar um autômato deixado pelo pai (Jude Law). A determinação do menino ajuda a mudar não apenas sua própria vida, como a de todos ao seu redor. Entre estes está o grande homenageado da história: Georges Méliès, um dos pioneiros do cinema, que revolucionou a indústria em seu tempo ao criar filmes com cores e efeitos especiais surpreendentes para a época - final do século 19.

Ben Kingsley é Georges Méliès.

Ben Kingsley está perfeito no papel, tanto na atuação sempre afiada como na caracterização que o deixou idêntico ao Méliès da vida real. O longa é uma ode à sétima arte para crianças e adultos, e faz jus a todos os prêmios recebidos. Só tenho um questionamento com relação ao filme: por que não fui assistir no cinema? Se você ainda não assistiu, não perca tempo. Vale a pena assistir, apreciar e conhecer mais sobre o pai dessa fantástica fábrica de sonhos.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Casterman publicará álbum inédito de Tintim

Em conversa com o jornal Le Parisien, Benoît Mouchart falou sobre os novos projetos envolvendo Tintim, incluindo um álbum inédito. Ex-diretor do Festival de Angoulême, Mouchart já ocupa há um ano a posição de diretor editorial na Casterman, distribuidora oficial da obra de Hergé, e desde o início de sua gestão tem como prioridade colocar ordem nas relações complicadas, como a que existia entre a editora e a Moulinsart até algum tempo atrás.


Com o bom relacionamento restabelecido, Casterman e Moulinsart lançaram em março o livro "La Malédiction de Rascar Capac - vol 1. - Le Mystère des Boules de Cristal". Com 136 páginas, a publicação é uma edição comentada e explicativa das 150 tiras da versão original de "As 7 Bolas de Cristal", publicadas pelo jornal belga Le Soir entre 1943 e 1944. O livro reúne esboços, imagens dos arquivos de Hergé e informações diversas sobre a criação da obra, incluindo a participação de Edgar P. Jacobs na produção do álbum. O segundo volume, sobre "O Templo do Sol", está programado para setembro de 2014.


Mas Benoît Mouchart já tem outros projetos em andamento. Falando de uma versão colorida de "Tintim no País dos Sovietes", Mouchart confirmou: "Este é um projeto oficial e tem o apoio da Moulinsart. Uma página de teste foi mesmo realizada, com cores mais sépias. Eu estava um pouco cético no início, mas percebi que foi um verdadeiro sucesso. Só que não temos cronograma de lançamento".

Quando questionado sobre a publicação de uma aventura completamente inédita, Mouchart respondeu: "Sim, é um inacabado que se chama "Tintin et le Thermozéro", que se situa entre "Tintim no Tibete" e "As Jóias da Castafiore". Há cinco ou seis versões do roteiro, um deles escrito por Greg. É uma história muito 'hitchcockiana'. Tintim é testemunha de um acidente de carro: um homem é atropelado. Ele coloca sua capa sobre o ferido, que acaba morrendo. Ele descobre um papel no bolso e que os homens querem recuperá-lo... Hergé finalmente desistiu da publicação, porque era muito próximo de álbuns como "O Caso Girassol". Existe um storyboard completo e oito páginas de rascunhos desenhados por Hergé. Estamos discutindo uma publicação, algo semelhante a como publicamos "Tintim e a Alfa-Arte" após sua morte. Mas, novamente, não há nenhuma data", conclui.
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